5 coisas que as séries CSI (não) lhe ensinaram

Maio 19, 2019 Atualidade, Concelho, Cultura, Mundo, Opinião
Iara Brito

A maioria de nós já viu, pelo menos, um episódio de alguma série CSI. A oferta é variadíssima: CSI – Miami, NCIS – Los Angeles, Investigação Criminal, Castle, Mentes Criminosas, Casos Arquivados, Sherlock, CSI, O Mentalista,, entre muitas outras. As séries CSI (Crime Scene Investigation) têm angariado cada vez mais aficionados devido ao seu carácter misterioso, de suspense, aliado com ciência, raciocínio e inteligência capazes de desvendar qualquer crime.



Mas, será que a investigação criminal é tão emocionante e ativa como retratada na televisão? Vamos falar apenas de 5 coisas que geralmente a televisão apresenta, mas que na realidade não aconteceriam assim.

  1. Tiro nos pneus: quem já não viu aquela cena impressionante de perseguição que culmina com o tiro certeiro do agente no pneu do carro do criminoso, fazendo-o parar? Pois bem, na realidade, isso não acontece para além de ser extremamente perigoso. O tiro no pneu pode atingir o condutor ou os transeuntes, podendo fazer ricochete na jante ou no chão. Por outro lado, a bala não perfura o pneu e por isso não para de imediato o veículo. O que acontece é que a bala cria um buraco (não um rasgo) que permite que o veículo ainda circule após o disparo;
  2. Proteção de balas através do carro: dentro de um veículo, a proteção das balas é impossível. Ensina-nos Vítor Teixeira, inspetor e responsável pelos serviços de armamento e tiro da diretoria do norte da PJ: “vê-se no filme o sujeito a abrigar-se atrás do carro, mas é o mesmo que estar atrás de uma chapa porque apanha com os tiros na mesma. Não resulta”;
  3. Celeridade da investigação: em pouco tempo, os exames laboratoriais são realizados, o médico-legista tira todas as conclusões e todo o processo investigativo se conclui em poucos dias. Na realidade, os investigadores têm de ter bastante mais perseverança. A prova, para ser válida e legal, tem de obedecer a critérios de custódia de prova; os exames forenses são rigorosos e exigem tempo; os investigadores têm mais do que um processo em investigação em simultâneo e a lista podia continuar…a verdade é que o processo de investigação exige tempo e não é dado a impaciências;
  4. Tecnologia ultra-avançada: é preciso saber quem é o sujeito que aparece na câmara de vigilância? A base de dados dá a resposta. Ficará a saber, nome, idade, profissão, escola que frequentou, progenitores, etc. Uma pequeníssima amostra de ADN e…voilá, temos o arguido. Um fio de cabelo agarrado a algo é o suficiente para traçar o perfil genético. Na realidade, esses cabelos já entraram em apoptose (morte celular) pelo que não encontramos ADN mitocondrial. Todos os telemóveis são rastreados em questões de segundos, sendo facilmente detetável a localização da potencial vítima ou do ofensor. Com tudo isto, o trabalho da PJ ficava muito mais simples. Contudo, as tecnologias apresentadas nas séries, muitas vezes, não existem; os exames não poderiam ser realizados nas circunstâncias apresentadas para além de que a legislação estipula regras e limites para os procedimentos de investigação sob pena de serem considerados nulos;
  5. Muita ação e pouca secretária: no mundo cinematográfico, o trabalho do agente policial é marcado pela constante ação, serviços de investigação externos, inquéritos e perseguições. Contudo, o agente tem aliado a tudo isto a obrigação de redigir relatórios onde constam todas as atividades e passos dados. Estes relatórios precisam ser detalhados e informativos o suficiente para que a prova possa ser validada em sede de audiência. Por vezes, os agentes são chamados a tribunal para prestar declarações e esclarecimentos e, mais uma vez, sabem do que eles precisam? Paciência! Para esperar pela sua vez de serem ouvidos, por assentirem com a desmarcação das audiências, por verem o seu trabalho questionado pelo/a advogado/a de defesa (que, por sua vez, está também a fazer o trabalho que lhe compete).

Assim, a investigação criminal é um trabalho ativo, de raciocínio, de ação, de questionamento constante, mas é também trabalho de paciência, resiliência e de exigência intelectual e pessoal.

Por: Iara Brito* (Criminóloga).

(* A redação do artigo de opinião é única e exclusivamente da responsabilidade da autora)

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