A muralha de Constantinopla aos pés do autoritarismo

Janeiro 8, 2017 Atualidade, Opinião, Política
raquelsfernandes
Raquel dos Santos Fernandes

As recentes vagas de democratização conduziram à construção do maior número de regimes democráticos de sempre. Esta evolução generalizada dos processos de democratização faz-nos, inequivocamente, questionar sobre a qualidade das democracias contemporâneas e sobre a relação dos Estados com a democracia e as sociedades.

Nos vários grupos que compõem a humanidade existem indivíduos com elevados níveis de autoritarismo e narcisismo, por vezes, megalómanos até, mas que nunca tiveram a oportunidade de se tornarem ditadores de uma nação. Esta oportunidade será determinada pelo contexto que, consequentemente influenciará o comportamento e as características destes indivíduos.

Quando o contexto não é favorável às suas pretensões e ambições, utilizam “incidentes de crise” para manipular as massas. Na Turquia que Ataturk colocou no mapa, o “incidente de crise” pseudo-golpe de Estado de 15 de julho de 2016 outorgou a Recep Tayyip Erdogan esse contexto – ao garantir que o golpe havia sido uma conspiração contra a nação, evidenciou que o país estava ameaçado, abriu caminho para a imposição de severas restrições às liberdades civis e incutiu na população uma forte sensação de que a sociedade estava sob ataque de inimigos internos. As sucessivas ameaças que o país tem vindo a viver criaram um clima psicológico favorável à ditadura e os sentimentos de incerteza e de ameaça entre a população resultaram numa maior conformidade e num maior apoio à liderança autoritária. Num país onde os direitos humanos, as liberdades civis e a transparência são princípios descartados e onde as instituições e os meios de comunicação são pouco independentes, a Constituição da República tem vindo a sofrer várias emendas, quer em privilégio dos intervenientes políticos, quer, essencialmente, para dotar o Presidente eleito de um maior número de poderes.

Na maior prisão de jornalistas do mundo (segundo a organização Repórteres Sem Fronteiras, mais de 100 jornalistas encontram-se detidos nas prisões turcas), o governo acaba de comunicar aos meios de comunicação do país a proibição de noticiar o desenvolvimento do trágico atentado com que o país acordou no primeiro dia do ano; o acesso ao youtube, ao twitter e ao facebook está constantemente a ser bloqueado e debate-se a “legalização da violação” em caso de o agressor contrair matrimónio com a vítima. À medida que os afluentes movimentos migratórios para a Europa aumentam, aumenta a influência da Turquia na Europa. À medida que a crise dos refugiados acresce, acresce a condicionalidade para o alargamento da União Europeia à Turquia. E assim, começamos a descurar que as instituições devem garantir a democracia, o Estado de Direito e os direitos humanos e que as minorias devem ser respeitadas e protegidas. Assim, estes indivíduos começam a levar a melhor. A sua hegemonia religiosa e política enfraquece a democracia e a não atuação do Estado na inclusão dos seus cidadãos no sistema de decisão política potencia a desilusão e os baixos níveis de participação.

Regimes eleitos democraticamente com problemas estruturais no seu sistema democrático existem… A Turquia é um deles. E indivíduos com elevados níveis de autoritarismo e narcisismo também… E Erdogan é, claramente, um deles!

 

Por: Raquel dos Santos Fernandes (investigadora – mestre em Ciência Política).

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