“A saúde mental faz parte da resposta da saúde pública à COVID-19”

Maio 8, 2020 Atualidade, Concelho, Mundo, Opinião

Saúde mental em tempos de pandemia

Marisa Marques

À medida que o COVID-19 “varre o mundo”, este causa uma ampla preocupação, ansiedade, medo, tristeza…Reações estas que são inatas ao ser humano quando está perante mudanças repentinas e incertezas, bem como situações de ameaça ao seu bem-estar, tal como vivemos nos dias de hoje.



A Organização Mundial da Saúde (OMS, 2020) alertou para consequências psicológicas e mentais do novo coronavírus, uma vez que o vírus gerou, e continua a gerar, stress na população, devido ao risco de contaminação, incerteza, isolamento social e desemprego entre outros motivos provocados pela pandemia, levando ao aparecimento e agravamento de problemas psicológicos e doença mental.

O cenário em que vivemos é especialmente perigosos por 3 grandes razões: (a) porque obrigou a uma súbita eliminação das nossas rotinas diárias, levando à retração social e perda da estrutura quotidiana; (b) porque as atuais notícias catastróficas são uma espécie de “trampolim” para pensamentos negativos e cíclicos, de tristeza e irritabilidade; e, por último, (c) porque os apelos permanentes à higiene manual meticulosa são solo fértil para manias de limpeza e controlo, reforçando comportamentos obsessivos e compulsivos.

Portanto cabe a cada um de nós compreender que esta situação de pandemia, requer o cumprimento das medidas de prevenção e de contenção, não só definidas pela OMS e pela DGS (Direção-Geral da Saúde), como também uma consciencialização da influência do mesmo na nossa Saúde Mental.

Os últimos meses têm sido difíceis para todos nós. De um momento para o outro, tivemos de alterar rotinas, adotar novas formas de vida e, diria até, enfrentar uma nova realidade.

Atualmente familiares, amigos e até mesmo a sociedade em geral começam a evidenciar o reforço nos cuidados de saúde, através da sua alimentação e suplementos e, até da atividade física, de força a fortificar o seu sistema imunitário. Esta é de facto uma postura crucial a manter e a adotar nesta altura, mas…E a Saúde Mental? As emoções? Os sentimentos? Raramente nos lembramos delas e o quão importante são para a nossa saúde.

É importante que tomemos consciência que os desequilíbrios emocionais acarretam alterações fisiológicas, nomeadamente a nível do aumento de hormonas de stress como a adrenalina e o cortisol, afetando diretamente o nosso sistema imunitário. Assim sendo, é muito importante que olhemos para a nossa saúde com um olhar alargado que inclua o cuidar da nossa saúde física, mas também psíquica, mental e emocional. A partir desta ressignificação estaremos muito melhor preparados para enfrentar este vírus e as suas variadas consequências, com vista à saúde e ao bem-estar pleno.

Torna-se agora fundamental definir prioridades e começar a voltar as nossas prioridades para o nosso Bem-estar psicológico e a Saúde Mental. Mesmo sabendo que não é fácil, uma vez que quando tudo corre mal ou não correr como desejado, a última coisa em que pensamos é no nosso equilíbrio emocional. O SNS e a OPP têm desenvolvido um trabalho fenomenal na promoção e prevenção da saúde mental criando as linhas de apoio psicológico que visam ajudar a uma melhor gestão de emoções como o stress, a ansiedade, angústia, medo; promover a resiliência psicológica; reforçar o sentimento de segurança da população e dos cuidadores, encaminhado para entidades de apoio emergente em caso de necessidade.

Contudo temos de começar a pensar num plano de atuação mais específico, de avaliação e intervenção na doença mental e mal-estar psicológico, não só nos doentes infetados, casos suspeitos e aos profissionais de saúde, mas sim a toda a população que foi vítima de uma forma ou de outra do COVID-19. Uma vez que “em períodos de catástrofe natural, vemos que as taxas de suicídio tendem a cair temporariamente. A coisa pode ficar crítica quando o evento passa, quando não se trata mais de uma questão de sobrevivência, mas de como prosseguir a existência a partir daí. É nesse momento que se percebe tudo o que foi destruído durante a situação de crise. Sendo bem possível que a tendência ao suicídio cresça de novo.” (Sociedade Alemã de Prevenção do Suicídio, 2020)

O medo de ficar doente, que algum familiar fique doente, medo de perder o trabalho, o aumento dos conflitos em casa, o teletrabalho e a escola online dos filhos, a mudança de rotinas e a difícil gestão do tempo. Estar longe de quem se ama” todas estas preocupações são naturais. Mas quando começam a afetar o nosso dia e a nossa noite e a causar sofrimento, ansiedade, tristeza, irritabilidade…poderemos estar a desenvolver um quadro de Ansiedade e /ou Depressão associada ao COVID-19. Como em outros casos, devido à exposição do cenário de COVID-19, podemos desenvolver Traumas Emocionais em – Perturbação de Stress Pós-Traumática (PSPT).

Relatos de palpitação, suores, aumento da pressão arterial, perda de apetite, dificuldade em respirar, problemas de concentração e sono, tristeza, raiva e culpa serão mencionados por grande parte da população portuguesa. E em quadros extremamente severos poderão desenvolver ideações suicidas.

Espera-se que a população em geral experiencie quadros de depressão e ansiedade, enquanto que as vítimas de infeção COVID-19, profissionais de saúde e outros profissionais de 1º linha experienciem em grande número a PSPT. Porém receio que não vá ser possível dar apoio psicológico a todos.

Não se esqueça de que é essencial que NÃO descuide da sua Saúde! Se se encontra nesta situação, deixo-lhe “3 regras de sobrevivência”:

1. Peça ajuda, nomeadamente, psicológica. Lembre-se que o primeiro passo para que possa melhorar a sua condição, é aceitá-la, olhá-la de frente e erguer-se perante ela.

2. Procurar manter sempre a calma e, por muito difícil que seja, substituir os seus pensamentos negativos por pensamentos positivos.

3. Não se isole!

Por: Marisa Marques * (Psicóloga Clínica e da Saúde).

Fotos: ROMANEWS | Enric Fontcuberta – EPA | DR.

(* A redação do artigo de opinião é única e exclusivamente da responsabilidade da autora)

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