Alexandrino Ribeiro (Professor do IPCA): “Vamos conseguir dar a volta”

Abril 5, 2020 Atualidade, Concelho, Economia, Educação, Entrevistas, Mundo, Política

Entrevista ao académico barcelense sobre o impacto da COVID-19 na nossa vida

Alexandrino Ribeiro é Docente do Ensino Superior, lecionando no Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA), onde também é Diretor Mestrado em Gestão das Organizações, Diretor da Licenciatura em Gestão Bancária e Seguros. Licenciado em Gestão, Mestre em Economia e Doutorado em Finanças Empresariais, este académico barcelense é, igualmente, Deputado Municipal na Assembleia Municipal de Barcelos, integrando o Grupo Municipal do PSD, partido onde é Secretário do Gabinete Autárquico do PSD Barcelos e Membro do Conselho Estratégico do PSD (secção de Economia e secção de Ensino Superior, Ciência e Tecnologia). Associativamente, é Secretário do Centro de Solidariedade Social de S. Veríssimo e Tesoureiro da União Desportiva de S. Veríssimo.



Tendo em conta este momento de emergência nacional advinda da pandemia COVID-19 e das consequências que a mesma está – e irá continuar – a ter na vida das pessoas e das empresas, o Professor barcelense aceitou responder a algumas questões que lhe colocámos, por escrito, para que nos possa elucidar e dar uma melhor perspetiva, do seu ponto de vista, para o nosso futuro, enquanto sociedade e economia, não só, da barcelense, como da nacional.

Parece evidente que a economia do nosso país vai levar uma “pancada” (palavra usada pelo Primeiro-Ministro, António Costa) muito grande. Quão grande será essa “pancada”?

Será muito forte, seguramente. Mas a real dimensão da “pancada”, o real impacto da pandemia do Coronavírus na economia portuguesa ainda é uma incógnita pois depende do tempo necessário para se resolver o problema da saúde pública, dependerá do tempo necessário para que os mercados regressem ao seu normal funcionamento. Esse tempo é algo que, atualmente, em bom rigor, ninguém sabe ao certo. O que podemos fazer é um estudo dos impactos económicos traçando cenários, mais otimistas ou mais pessimistas, em termos de duração da crise sanitária. Mas em um ou em outro cenário, o mais provável, é que a economia portuguesa entre em recessão no ano de 2020, podendo mesmo mergulhar na maior recessão alguma vez registada.  

Avançando só alguns números sobre a dimensão e a intensidade do impacto do Coronavírus na economia portuguesa em 2020, e tendo por base o recentemente divulgado Boletim Económico de março do Banco de Portugal, num cenário adverso de tudo isto se prolongar até julho, que se torna cada vez mais provável, teremos uma contração económica de 5,7% neste ano, que será o maior colapso da economia portuguesa num só ano. O impacto no emprego será também previsivelmente muito forte, com uma subida acentuada na taxa de desemprego que pode fechar o ano nos 11,7%, registando-se a maior destruição laboral desde que há registos, até porque o investimento deverá também diminuir em 15% face ao ano de 2019. Diminuições acentuadas são ainda previstas para o consumo privado, de 4,8%, para as exportações, de 19%, e para as importações, que devem baixar em cerca de 18,7%. Na generalidade, estas variáveis macroeconómicas registarão o pior desempenho anual desde que existem registos das séries históricas do INE e da Comissão Europeia, ou seja, desde 1960. Neste cenário, penso que uma outra questão fica bem clara, o Orçamento de Estado, recentemente promulgado, terá de ser alvo de um orçamento retificativo.

Não é minha pretensão com todas estas projeções lançar alarmismo nas famílias e nas empresas, mas sim contribuir para uma consciencialização de um cenário para o qual nos devemos preparar urgentemente.

As consequências desta pandemia nas economias mundiais vão influenciar a performance da do nosso país? Como?

Essa é uma consequência inevitável. Uma economia com o nível de abertura ao exterior como a portuguesa sofre sempre os efeitos positivos e, neste caso concreto, negativos da performance das outras economias mundiais. Essencialmente, daquelas com quem realizamos maiores trocas comerciais, que são, na sua maioria, economias de países da União Europeia.

Se os cenários para 2020 apontam para uma recessão na economia global e europeia, é percetível que, ao contrário de outras crises económicas que Portugal já ultrapassou, desta vez, a variável comércio externo não vai contribuir para o ultrapassar da crise, antes pelo contrário. Por outro lado, considerando a forte correlação que existe entre o desempenho económico em Portugal e na Europa e o facto de a economia portuguesa ser uma das que maior dependência apresenta do setor do turismo e do consumo das famílias, é expectável que a recessão até seja maior em Portugal do que na maioria das economias da União Europeia.

Quais as economias que Portugal precisa que não “caiam” tanto?

Era importante que as economias para as quais o Nosso volume de exportações é mais elevado não apresentassem quedas muito elevadas. Porém, se olharmos para os dados do ano de 2019 relativos às exportações portuguesas, constatamos que cerca de 66% dessas exportações destinam-se a seis países: Espanha, França, Alemanha, Reino Unido, EUA e Itália. As notícias que chegam destes seis países não são muito animadoras, reforçando a ideia que não é expectável que, desta vez, seja o comércio externo a puxar a Nossa economia para cima.

Então, como podemos inverter este cenário negativo para a economia portuguesa e mundial?

Nunca houve uma crise económica e financeira assim, com um choque fortíssimo em simultâneo do lado da oferta e do lado da procura, num espaço de tempo demasiado curto e generalizado a nível mundial. Se estamos perante uma crise económica com características diferentes das anteriores, não podemos planear sair dela seguindo rigorosamente as mesmas estratégias anteriormente seguidas, temos de ajustar a estratégia às características e enquadramento presente. É minha convicção que somente através de um programa coordenado de estímulos ao nível europeu e mundial é que será possível relançar a economia global. Como alguém já referiu, e bem, desta vez “estamos todos no mesmo barco”, por isso a solução para ultrapassar esta crise tem de ser concertada a nível mundial, onde o Banco Central Europeu e a União Europeia terão também um papel fulcral.

Um pouco por todo o Mundo, os Governos têm implementando medidas que visam atuar do lado da procura e do lado da oferta. Do lado da procura, visando conter a descida acentuada dos rendimentos disponíveis das famílias para que o consumo não desça tão bruscamente. Quanto ao lado da oferta, procurando aliviar um pouco as exigências de tesouraria das empresas no intuito de as tentar segurar no mercado. No caso concreto de Portugal, as medidas avançadas parecem-me que ainda são escassas e que terão de ser reforçadas a breve prazo.

Quer se concorde, ou não, este é um tempo onde teremos de esquecer momentaneamente a questão do endividamento público e do deficit, utilizando criteriosamente os recursos financeiros públicos que forem necessários para ultrapassar a crise económica e financeira. Na certeza de que, posteriormente, teremos uma “fatura” elevada para pagar durante vários anos, mas não me parece que exista outra alternativa.

Do seu ponto de vista, quais as atividades económicas que serão mais afetadas?

Todos os setores de atividade serão afetados, embora com diferentes intensidades e duração. O setor do turismo será certamente o mais afetado. Mas existem setores como o dos transportes aéreos, o imobiliário, da restauração, do petróleo, da produção automóvel e do comércio a retalho não alimentar que sofrerão, por uma ou outra razão, um impacto bastante negativo.

Uma outra questão que será muito relevante para a sobrevivência das empresas, independentemente do setor de atividade onde operem, será a sua estrutura de custos. Empresas que apresentem estruturas de custos com um peso relativamente elevado de custos fixos, sejam eles operacionais ou financeiros, terão muitas dificuldades em ultrapassar esta crise e manterem-se no mercado. A exposição dessas empresas ao risco, nesta época de forte contração económica, será ainda mais problemática que propriamente o fator de estar a operar em um setor de atividade mais ou menos afetado.  

Acredita que essas atividades recuperarão facilmente ou o caminho ainda será longo?

Ganha cada vez mais consistência a ideia de que a recuperação será longa. Há semanas atrás, acreditava-se que a evolução económica e setorial seria como a letra “V”, ou seja, a seguir a uma queda económica brusca seguir-se-ia uma recuperação de igual intensidade. Porém, com o passar do tempo, o agravar da situação ao nível da saúde e com o aumento do período de paragem, ganha força a possibilidade de a evolução ser enquadrada na letra “U”, isto é, a um período de forte queda económica seguir-se um período de estabilidade, passando-se para um período de crescimento moderado e somente depois é que o crescimento económico acelera. Todo este movimento do “U” poderá ter uma duração de 2 a 3 anos.

O grande desafio às Instituições e aos Governos será evitar a evolução em “L”, isto é, que após a forte queda económica e financeira se siga um longo período em que a economia não recupera. Para tal, será necessário implementar as melhores políticas de apoio às empresas e às famílias, e com celeridade.

Em relação a Barcelos e à economia local, quais as atividades que, em seu entender, serão mais atingidas por esta “paralisação” da economia nacional e mundial? Porquê?

Tal como a nível nacional e mundial, os setores do turismo, do imobiliário, da restauração e do comércio a retalho não alimentar serão os mais penalizados na economia local barcelense. A estes acrescento o setor têxtil, pela elevada importância que o mesmo representa no Concelho de Barcelos e pelo facto dos principais clientes deste setor estarem localizados em países fortemente afetados pela pandemia.

Como professor do ensino superior, no caso, do IPCA, preocupa-o o impacto deste momento de emergência nacional, e confinamento, no alcançar dos objetivos, quer dos docentes, quer dos alunos?

No IPCA, as aulas presenciais, das licenciaturas e dos mestrados, assim como outras atividades académicas estão suspensas desde o dia 10 de março. A partir dessa data, temos trabalhado online. Mesmo as provas de apresentação e defesa das Dissertações de Mestrado têm sido realizadas online, com os elementos do júri das provas e os alunos em casa. Semanalmente, têm sido realizadas reuniões com diretores de curso de licenciaturas e de mestrados e com coordenadores de departamentos para se avaliar o funcionamento e planear desenvolvimentos futuros. O feedback é muito positivo. Na generalidade, a comunidade académica do IPCA sente-se muito confortável com este funcionamento.

O principal objetivo é criar mecanismos que minimizem o impacto negativo, quer nos alunos, quer nos professores, desta suspensão das atividades presenciais e que o ano letivo termine dentro da normalidade possível. Esse objetivo, no IPCA, está a ser alcançado. Penso que, tendo por base os contactos que mantenho com colegas, o mesmo se passará na generalidade das instituições de Ensino Superior a nível nacional. 

Tendo em conta a sua experiência associativa, neste momento em que as atividades culturais, desportivas e solidárias estão “congeladas”, adiadas ou, mesmo, canceladas, que impacto poderão vir a sentir as associações, clubes e entidades culturais nos seus orçamentos por causa desta situação?

Como sou membro dos órgãos sociais de duas Associações, uma da área social e outra da área desportiva, e o meu contributo nessas Associações está fundamentalmente relacionado com a parte financeira, como a prestação de contas e os orçamentos, essa é mais uma problemática que faz parte do meu dia a dia, e sobre a qual me tenho vindo a debruçar. A minha expectativa é que, sem dúvida, a paragem de atividade e a crise económica, financeira e social que daí advém, vai ter impactos negativos nos orçamentos das associações, devendo estas ter consciência de tal facto para evitar défices orçamentais problemáticos. Nas associações sociais, o impacto derivará essencialmente da necessidade de dar resposta a um crescendo de problemas sociais que vão surgir em muitas famílias, derivados do aumento do desemprego e da queda acentuada de rendimentos que a crise vai originar. As associações sociais terão de dar resposta a esse maior número de solicitações de apoio social, mas com os mesmos, ou menores, recursos financeiros.

Relativamente às associações desportivas, culturais e recreativas, uma parte significativa das suas receitas derivam do mecenato, com apoios financeiros das empresas às suas atividades. Com os problemas que a generalidade das empresas vai enfrentar, derivados da crise económica e financeira, é esperado que os apoios financeiros prestados a estas associações diminua, originando uma queda do lado das receitas das associações.

De um ponto de vista geral, enquanto cidadão, docente, académico, dirigente associativo e político, o que perspetiva para os próximos tempos, quer para o concelho de Barcelos, quer para Portugal e o resto do mundo?

De uma forma realista, perspetivo tempos difíceis em termos económicos, financeiros e sociais. Por outro lado, tenho muita confiança e otimismo que a Sociedade, junta, sem ninguém a ficar para trás, vai conseguir superar estes tempos difíceis. Mais uma vez, em maior ou menor espaço de tempo, vamos conseguir dar a volta, ultrapassar os graves problemas que estamos a enfrentar, e que ainda se irão agravar, e retomarmos o caminho do crescimento económico e da melhoria das condições sociais.

Este meu otimismo e confiança de que vamos conseguir superar todo este quadro negativo sai reforçado quando olho à minha volta e vejo o trabalho fantástico que tem sido desenvolvido pelos profissionais da saúde, pelas empresas, pelas instituições e pelos Autarcas, com alguns Presidentes de Câmara e Presidentes de Junta que têm sido exemplares na proteção e apoio aos seus cidadãos. Para todos eles, o meu muito obrigado por tudo que têm feito para minimizar as consequências negativas desta pandemia.



Agradecemos imenso ao Professor Alexandrino Ribeiro por esta entrevista, que mais parece uma master class de Economia, Gestão e Finanças. Nestes momentos difíceis, ressalta óbvio que as informações que advêm dos especialistas nestas áreas não são aquelas que mais queremos ler e ouvir, mas sentimos que todos temos que receber as informações o mais fidedignas possíveis para que nos possamos preparar e adaptar para o futuro próximo que, infelizmente, não parece ser o mais otimista. Mesmo assim, este académico barcelense consegue terminar com uma mensagem de otimismo no sentido de que iremos ultrapassar este momento mau, que “Vai ficar tudo bem!”. Juntamo-nos ao seu agradecimento a todos aqueles que têm dado o máximo de si para ajudar aqueles que mais necessitam.

Fotos: Alexandrino Ribeiro (arquivo pessoal).

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