Capítulo 2 – A Cena do Crime

Julho 27, 2019 Atualidade, Concelho, Cultura, Mundo, Opinião
Iara Brito

A cena do crime é o espaço delimitado, direta ou indiretamente relacionado com a prática do crime e que é objeto de inspeção judiciária. A deslocação à cena do crime traduz o primeiro contacto da polícia com o ato criminoso, objeto da investigação. Prefiro chamar-lhe “cena do crime” e não “local do crime”, uma vez que a cena a que a Polícia tem acesso pode não ser o local onde o crime ocorreu. O corpo ou outras provas podem ter sido transportados para a cena e, por isso, o local onde o crime ocorreu ser outro diferente da “cena”. As investigações na cena do crime permitem a recolha de dados e elementos probatórios importantes para orientar a investigação. Permite, ainda, geralmente, estabelecer o nexo causal entre o crime o criminoso.



Voltemos ao caso “Maddie” e às especificidades da sua cena do crime. Alguns aspetos saltaram à vista das autoridades e fizeram equacionar a possibilidade de simulação de rapto. Vejamos:

Quando a PJ chega ao local, repara que no quarto onde as crianças dormiam não há qualquer marca de calçado. Uma cama está encostada à janela (pela qual o presumível raptor entrou), mas esta não tem marcas de pisadelas, o que exigiria haver dois raptores (um do lado de fora e outro do lado de dentro). As roupas da cama onde dormia Madeleine faziam parecer que a menina tinha saído da cama pelo seu próprio pé. Contudo, ressalva-se esta interpretação pela possibilidade de a cena ter sido alterada quando a mãe procurava a criança. O boneco com que Maddie dormia encontrava-se simetricamente ao lado de onde estaria o corpo e não abaixo da almofada, como seria de esperar. Quando a criança foi levada, nenhuma ação provocou a alteração de posição do boneco. A roupa de cama dos berços dos gémeos foi retirada. Inexplicavelmente. 

No quarto dos pais estavam duas camas encostadas e um espaço livre entre estas e o roupeiro. Pelo espaço vazio criado propositadamente, parece que poderia ter lá estado pelo menos um dos berços. Os gémeos podiam dormir no quarto dos pais e Maddie no outro quarto. Mas por que isso se alterou? Por que as crianças passaram a dormir todas no mesmo quarto, tornando até difícil a passagem de um adulto entre os berços e a cama no quarto das crianças?

Os McCann criticam duramente a Polícia Portuguesa por, a dada altura, defender a tese de que Maddie esteja morta e assim não efetuar uma investigação adequada para encontrarem a criança com vida. Contudo, a versão de Gonçalo Amaral no seu livro “A verdade da mentira” é outra. Segundo conta o ex-inspetor da PJ, a possibilidade de Maddie já não se encontrar viva vem dos próprios pais, especificamente de Kate. Em junho, a mãe da menina começa a dar algumas informações sobre a localização do cadáver. Tais informações ter-lhe-iam sido dadas por pessoas com poderes paranormais. Assim, o corpo podia encontrar-se no coletor de esgotos ou nos penhascos da praia da Luz, onde, por vezes, fazia corrida. Adicionalmente, Kate pede a familiares que se desloquem à sua casa em Inglaterra para procurar cabelos de Madeleine. A ideia era usar a máquina de Krugel, um ex-coronel do exército sul-africano, que desenvolveu um aparelho de localização de cadáveres baseado no princípio da libertação de átomos. Com insistência dos pais, a PJ assente em trazer Krugel ao Algarve. O método é então aplicado: Krugel sobre ao ponto mais alto a poente e coloca um cabelo de Madeleine na máquina e traça uma linha imaginária em direção a nascente; sobe ao ponto mais alto a norte e traça a linha até sul. Fica assim definido um corredor com cerca de 300 metros de largura. A conclusão do inventor é que o cadáver se encontra naquela área. Apesar de a GNR já ter analisado aquela área, volta a fazê-lo a pedido da PJ, mas nada é encontrado. Sim, parece a cena de um filme de ficção científica, mas não é!

As sugestões dos ingleses não ficam por aqui. Investigadores britânicos apresentaram à polícia portuguesa as vantagens da utilização dos seus cães na investigação. A PJ ficou a conhecer uma equipa cinotécnica da Polícia de South Yorkshire cujos resultados do seu trabalho eram verdadeiros milagres. Dada a situação em que a investigação policial se encontrava e parecer não haver andamento, em nome da cooperação policial, Portugal pediu auxílio à polícia inglesa. Este “jardim à beira-mar plantado” vê chegar o especialista Mark Harrison, com uma elevada carreira profissional no que toca ao auxílio e aconselhamento de planeamento e estratégias a aplicar nas buscas forenses em casos de homicídios, desaparecimentos e desastres naturais. Foram necessárias várias diligências para que este ficasse a conhecer todos os pormenores, desde análise minuciosa às declarações das principais testemunhas, estudo das linhas de tempo, conhecimento de helicóptero e a pé da vila da Luz e arredores, medições de ruas e muitas outras. Passada uma semana, o perito apresentou o seu relatório onde, de acordo com Gonçalo Amaral, terá plasmado a hipótese de Madeleine estar morta e o cadáver se encontrar nas proximidades da Praia da Luz. Mais, declarando que era altura de serem efetuadas novas buscas. Visto que as estatísticas demonstram que na maioria dos crimes cometidos contra crianças, a grande maioria é perpetrada por pessoas do seu círculo próximo, Harrison considerou que a solução poderia estar escondida no restrito círculo de indivíduos mais próximos de Maddie. Sendo assim, seria pertinente o recurso a cães especializados, nomeadamente um cão Enhanced Victim Recovery Dog, treinado para detetar vítimas mortais através do odor a cadáver e um cão Crime Scene Investigation para detetar sangue humano. E assim foi.

No apartamento 5A, o cão Eddie concentra-se no chão do quarto do casal e dá um alerta indiciando que sente odor a cadáver. De seguida, alerta para uma das paredes da sala, por trás do sofá, por debaixo da janela. Chegou a vez de Keela, o cão CSI, exibir o seu trabalho. Keela deu sinal da existência de pequenas manchas de sangue atrás do sofá num mosaico do chão. Relativamente aos restantes apartamentos, o cão Eddie não deu qualquer alarme pelo que se considerou desnecessário usar o segundo cão.

Imagem da Revista Sábado – quarto dos McCann

No cumprimento de mandado de busca, a polícia foi à casa arrendada pelos McCann a fim de efetuar uma inspeção cinotécnica. Eddie alertou para o peluche cor de rosa, pertencente a Maddie, que a mãe se fazia sempre acompanhar, como tendo contacto com cadáver.

Os canídeos efetuaram ainda exames às viaturas, tendo apenas dado alerta no Renault alugado pelos McCann 25 dias após o desaparecimento. Existia odor a cadáver na parte inferior da porta do condutor e na bagageira. O segundo cão, Eddie, veio confirmar o trabalho do seu parceiro, indicando a existência de vestígios hemáticos na chave e na bagageira do carro. Todos os vestígios encontrados foram enviados para laboratório do Reino Unido.

Neste segundo capítulo analisamos apenas algumas questões relacionadas com a cena do crime e as diligências aí efetuadas. É importante dizer que esta cena de crime não foi devidamente protegida para preservação de indícios e provas. As autoridades falharam em não restringir o acesso ao local de imediato. Aquele apartamento foi “invadido” por funcionários, turistas, residentes, curiosos, jornalistas…Quando um hotel protagoniza uma cena de crime, por si só, dificulta o trabalho policial uma vez que este tipo de cena, naturalmente, possui marcas da passagem de diversas pessoas. Neste caso, para além disso, a PJ ainda teve de lidar com o facto de após o alarme de Kate McCann, o apartamento ter sido deixado aberto e todos os que quiseram, entraram no mesmo e alteraram a cena.

Contudo, deixo algumas questões aos leitores exatamente por terem surgido estes obstáculos. Como, após entrada e saída de tantas pessoas, não há marcas de calçado? Como a tal cama encostada à parede e perto da janela, supostamente usada pelo raptor para entrar no quarto das crianças, não possui qualquer marca de pegada? E como não tem qualquer marca, natural de ter sido mexida, após tantas pessoas estarem ali? Como o peluche de Maddie se encontra intacto, perfeitamente posicionado? Nem o raptor mexeu no boneco ao tirar a criança, nem a Maddie lhe mexeu enquanto dormia, nem a mãe o movimentou quando procurava a criança, nem qualquer pessoa que tenha entrado naquele quarto. Se a presença de vestígios nos pode contar a história, a ausência destes também o pode fazer. É lógico pensar que aquele apartamento foi limpo antes da chegada da PJ. Mas de acordo com os cães da polícia britânica, essa limpeza não foi perfeitamente efetuada uma vez que estes detetaram vestígios de sangue no chão atrás do sofá. O mesmo se diz do carro da família, onde os cães voltaram a detetar vestígios hemáticos e odor a cadáver. De acordo com uma testemunha, vizinha da moradia arrendada pelos McCann, enquanto aguardavam o desenrolar da investigação, o casal deixava a porta da bagageira do carro aberta durante a noite. Se a intenção era libertar possíveis odores, não foi difícil para os canídeos ingleses detetaram que ali teria estado um cadáver. Não fossem estes cães de nacionalidade inglesa…

Para o próximo mês, termino esta reflexão com o último capítulo intitulado “As perguntas”. 

Por: Iara Brito* (Criminóloga)

(* A redação do artigo de opinião é única e exclusivamente da responsabilidade da autora)

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