Caso Maddie – O crime perfeito?

Junho 26, 2019 Atualidade, Concelho, Cultura, Mundo, Opinião
Iara Brito

O caso Maddie, acontecido em 2007, parece ser o crime perfeito. Apesar de várias linhas de investigação terem sido seguidas, várias teorias acerca do que terá acontecido terem sido criadas, a verdade é que este enigma ainda continua sem resolução. O caso chama ainda a atenção por conter inúmeras particularidades, nomeadamente o incomum apoio financeiro que tem sido dado à sua investigação e a cobertura mediática que continuamente tem recebido. Este tema será analisado e apresentado aos leitores em 3 capítulos. O meu objetivo passa por sintetizar os factos mais importantes deste caso e procurar refletir sobre estes com base na análise de artigos, notícias, documentários, entrevistas, séries, etc., não visando atribuir culpados. Posto isto, comecemos pelo primeiro capítulo: “O desaparecimento”.




Capítulo 1 – O desaparecimento

Uma família inglesa, residente em Leicester, vem passar férias com uns amigos à Praia da Luz – Algarve, Portugal. A 3 de maio de 2007, no apartamento 5A do resort Ocean Club desaparece, misteriosamente, uma menina de 3 anos de idade, de nome Madeleine McCann. No dia do desaparecimento, tal como já era hábito, os adultos vão jantar ao restaurante Tapas e deixam as crianças a dormir nos apartamentos. De acordo com a versão dos ingleses, estes faziam uma ronda de 15 em 15 minutos aos quartos onde se encontravam as crianças. Numa dessas rondas, Kate McCann dá pela falta da sua filha mais velha e corre para o restaurante dando o alerta.

Os turistas apoiam a família na procura da pequena Madeleine, dando depois disso alerta às autoridades locais. A GNR foi a primeira a deslocar-se ao local e a fazer buscas nas proximidades. Dando conta de que a situação poderia envolver crime, designadamente os testemunhos dos pais e amigos que apontavam para rapto, a Polícia Judiciária é chamada a intervir. Começam os interrogatórios, dá-se continuidade às buscas. A PJ, GNR, PSP, Polícia Marítima, Bombeiros, Cruz Vermelha, turistas, residentes da Praia da Luz, todos trabalham em conjunto na procura incessante da menina. Mas nada é encontrado. O casal McCann decide chamar a atenção dos mass media, tanto em Portugal como em Inglaterra, procurando sensibilizar a quem soubesse do paradeiro da sua filha a entregá-la de volta à família.

A 14 de maio, com o desenvolvimento do caso, as autoridades policiais iniciam diligências na casa de Robert Murat. As atenções recaem sobre o homem dada a proximidade que este estabeleceu com o casal McCann e o seu espírito voluntário na tradução dos depoimentos dos intervenientes britânicos e na comunicação com os media. O seu comportamento parecia indicar querer estar perto das informações sobre o caso e, segundo alguns, o seu aspeto físico (deficiência num olho) fazia dele um claro suspeito. Por outro lado, a Casa Liliana onde o suspeito morava tinha vista privilegiada para o apartamento 5A. Um amigo do casal McCann diz reconhecer Murat como sendo o homem que levava uma criança de pijama ao colo na noite do desaparecimento. Quando questionado sobre a certeza na identificação do homem, diz que o reconhece por causa da sua deficiência no olho. Contudo, esta justificação é facilmente desmentida uma vez que Murat sempre esteve perto do casal e dos amigos e nunca estes o identificaram. Como, de repente, afinal ganham certeza de que foi este homem? Por outro lado, a deficiência no olho não é percetível à noite, muito menos da posição lateral como estes tinham relatado ter visto o homem. As diligências efetuadas na casa nada encontraram e após interrogatórios, esta teoria cai por terra.

O casal turista que procurava uns dias de férias e de descanso e que acaba por sofrer tamanha crueldade, em setembro de 2007 passa a ser o vilão da história. Tudo começa com as discrepâncias nos seus testemunhos. Quando solicitado pela PJ para elaborarem uma lista das vigilâncias a fim de traçar a linha cronológica e tentar reconstruir as últimas horas, o casal fornece duas listas com alterações consideráveis, que nunca conseguiram justificar. Na primeira lista, o apartamento 5A não foi vigiado durante 45 minutos (desde as 21:15h às 22:00h), situação alterada na segunda lista. Na primeira, Matt não é mencionado como ter feito alguma vigilância no interior do apartamento, diferentemente da segunda lista que diz que às 21:35 este vê os gémeos, desconhecendo se Madeleine estava na cama. Digamos que para vigilante, este homem tem pouco talento. O seu testemunho merece também atenção. No depoimento, afirma que após verificar o seu apartamento, atravessa o parque de estacionamento e entra pela sacada traseira do apartamento 5A e vai ao quarto das crianças onde nota claridade. Contudo, não explica como passou duas vezes por aquela janela pelo exterior e nunca deu conta de que esta se encontrava aberta, como afirma ter observado no interior do apartamento. Mais declarou, assim como a sua esposa, que vigiou as duas janelas do quarto quando apenas existe uma.

Os exames lofoscópicos à janela apenas encontraram uma marca palmar da mão de Kate no sentido de abertura da janela. Não foi encontrada outra marca, nem de uma luva, quer no interior quer no exterior da janela.

Depois, a questão paira no comportamento dos gémeos de 2 anos de idade, irmãos de Madeleine, que apesar da confusão instalada, do “entra e sai” do apartamento, continuavam a dormir descansadamente. Questionados os progenitores se tinham medicado os seus filhos, ambos negam. Contudo, essa negação dura pouco tempo quando depois assumem que, possivelmente, poderiam ter medicado os filhos apenas para ajudar no sono. Pergunto-me: por que não foram efetuadas análises hemáticas aos gémeos?

No que toca à localização do restaurante que sempre se indicou ser perto dos apartamentos e haver contacto visual entre a mesa do restaurante em que se encontravam a jantar e os quartos das crianças, a polícia verificou não haver possibilidade de visualizar os apartamentos tanto pela distância física como pela existência de um plástico que protegia o restaurante. Felícia Cabrita, jornalista e interessada por este caso, conta também na série “O desaparecimento de Madeleine McCann”, da Netflix, que, na altura dos factos, foi jantar ao restaurante Tapas, precisamente no mesmo sítio que os ingleses costumavam jantar e afirma ser impossível visualizar o apartamento 5A.

O relato de Kate afirma que ao entrar no apartamento sentiu corrente de ar e a porta do quarto das crianças a bater. Quando entra no quarto, vê a janela totalmente aberta, a persiana levantada e os cortinados a esvoaçar. Ao aperceber-se da ausência da filha, corre para o restaurante. A polícia reflete sobre este comportamento e considera-o estranho. Levanta-se a questão da probabilidade de uma mãe que dá conta do desaparecimento de um filho, abandonar os outros e sair a correr. Ao fazer isto, deixa para trás, mais uma vez, duas crianças sozinhas com uma janela totalmente aberta, tornando-se alvos fáceis. Será que não seria mais provável agarrar-se aos gémeos verificando se se encontravam bem e gritar por ajuda nesse mesmo local ou pedir auxílio por chamada telefónica, não os abandonando, novamente?

Apesar de as operadoras telefónicas registarem telefonemas, os mesmos foram apagados dos telemóveis. Questiono-me da preocupação em apagar os registos telefónicos quando uma filha está desaparecida (?!).

O próximo capítulo dedicar-se-á à investigação da cena do crime levada a cabo pela Polícia Judiciária.

Por: Iara Brito*. (Criminóloga)

(* A redação do artigo de opinião é única e exclusivamente da responsabilidade da autora)

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