Contrarrevolução Iraniana

Fevereiro 11, 2018 Atualidade, Concelho, Cultura, Mundo, Opinião
Raquel dos Santos Fernandes

O Irão é o único país do mundo a impor a obrigatoriedade a todas as mulheres muçulmanas e não muçulmanas o uso do véu islâmico. Países como o Afeganistão ou a Arábia Saudita seguiram uma rota semelhante, quer pelo domínio talibã que se viveu no Afeganistão, quer pela matriz cultural Saudita. No Irão, todavia, desde 1983 que a “lei do véu” deixou de ser apenas uma regra hijab e passou a punir, legalmente, as mulheres que a desafiam.



O Irão é um Estado teocrático onde, apesar da realização de eleições, a religião se sobrepõe ao sistema político. O Conselho dos Guardiões, órgão do sistema político que assegura a concordância das leis aprovadas com a lei religiosa, apenas autoriza a candidatura dos apoiantes ao sistema teocrático. O Presidente Hassain Rohani, apontado como uma via moderada entre os políticos conservadores e reformistas iranianos, foi eleito em 2013, tendo sido reconduzido ao cargo nas eleições de 2017. Com a candidatura dos reformistas vetada pelo Conselho dos Guardiões, Rohani surgia como a opção menos inflexível.

A Revolução Iraniana de 1979, que colocou um ponto final na monarquia autocrática pró-Ocidental do Xá Mohammad Reza Pahlevi, trouxe à cena política do Irão Ruhollah Khomeini e a ideia de uma identidade iraniana bastante própria, sem qualquer interferência ocidental, onde o fanatismo absoluto e os princípios religiosos induziam uma reformulação da sociedade iraniana. Como qualquer transformação top-down (de cima para baixo), seja ela democrática ou autoritária, esta imposição do Estado sobre a sociedade, mais cedo ou mais tarde, torna-se alvo de contestação. E, hoje, principalmente em zonas urbanas, o “chador” começa a ser substituído por jeans, os véus caem sobre os ombros e o rosto maquilhado das mulheres mostram que a sociedade iraniana renasceu. Não evoluiu, renasceu. O que está a acontecer no Irão, esta transformação bottom-up (de baixo para cima), é prova do renascimento da sociedade civil para a vida política e social do país. Mais que qualquer manifestação feminista, próxima ao ocidente e à modernização, esta transformação é representativa do ressurgimento da cultura política iraniana e da tentativa de reformulação da relação entre o Estado e a sociedade.

Os protestos contra as regras hijab rompem com a dinâmica tradicional do poder exercida pelo Estado. Se, aquando a sua introdução, estas regras eram representativas do modo ideológico de governo imposto pelo Estado teocrático, a oposição que hoje lhe é feita pode ser encarada como uma contrarrevolução bottom-up, que mais que se opor ao governo, se opõe à conceção de Estado que Khomeini criou e ao envolvimento dos agentes políticos na vida privada dos cidadãos.

Em parte, esta contrarrevolução da sociedade iraniana ajuda a explicar o mote da crónica que aqui assino. Como dizia Bernie Sanders, na corrida às primárias do Partido Democrata, “as verdadeiras mudanças nunca ocorrem de cima para baixo, mas sempre de baixo para cima”. Estas são as mudanças que perduram, que reformulam as relações Estado-sociedade e que fazem renascer a cultura política dos Estados.

Por: Raquel dos Santos Fernandes*.

(* A redação do artigo de opinião é única e exclusivamente da responsabilidade da autora)

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