COVID-19: Estará a Nossa sobrevivência financeira colocada em causa?

Abril 26, 2020 Atualidade, Concelho, Economia, Mundo, Opinião
Alexandrino Ribeiro

Famílias, empresas e Estados enfrentam graves problemas de liquidez derivados da crise económica e financeira do Coronavírus. Moratórias, linhas de crédito e mecanismo comum de financiamento europeu são palavras na ordem do dia, por uma questão de sobrevivência financeira.



O efeito altamente negativo da pandemia do Coronavírus na economia continuou a marcar as temáticas económicas do mês de abril, sendo expectável que continue a marcar a agenda económica nos próximos meses.  É sintomático o facto de o preço de mercado do barril de petróleo ter atingido os cerca de 40 dólares negativos nos últimos dias, devido à falta de escoamento e de capacidade de armazenamento do mesmo, revelando o travão que a atividade económica mundial sofreu num espaço temporal inferior a dois meses, e as consequências económicas e financeiras atuais e a esperar para o futuro. 

Várias famílias e empresas têm enfrentado dificuldades de gestão de tesouraria, procurando, junto dos bancos, encontrar as melhores soluções para as ultrapassar, em grande medida, sustentadas nas políticas públicas emanadas pelo Governo. No que concerne às empresas, essas políticas públicas aplicam-se num duplo sentido, possibilitando que solicitem uma moratória da amortização do empréstimo e/ ou o recurso a linhas de crédito disponibilizadas às empresas. As linhas de crédito criadas pelo Governo têm sofrido, como previa, um aumento significativo de valor, dada a elevada procura das empresas por este apoio. Empresas que enfrentam problemas financeiros, com elevados desequilíbrios de tesouraria, resultantes da contração económica provocada pelo Coronavírus, encontram, nestas linhas de crédito, uma fonte de financiamento interessante, com um período de carência de 1,5 anos, um prazo de amortização que pode ir até 6 anos e com um custo de financiamento relativamente reduzido derivado do Estado ser o avalista do empréstimo. Conseguirão, assim, todas as empresas sobreviver a esta crise económica e financeira? Gostaria de pensar que sim, mas, infelizmente, algumas serão forçadas a fechar, quer porque nem todas as empresas conseguem cumprir os requisitos de acesso às linhas de créditos, quer porque algumas já se apresentavam financeiramente muito fragilizadas no início desta pandemia.

Ao nível das famílias, o empréstimo à habitação é, em muitas delas, o maior encargo mensal suportado. Não será assim de estranhar o facto de várias famílias terem já contactado os bancos para estudar a melhor solução para o seu caso concreto. A moratória do Estado permite, mediante o cumprir de alguns critérios, suspender e prolongar por 6 meses o pagamento da amortização de capital e/ou juros. Deste modo, as famílias ficam com um leque alargado de opções alternativas, cada uma delas com diferentes repercussões no custo total do empréstimo e no valor da prestação mensal a pagar futuramente. Entre essas várias opções, num momento em que as taxas de juro se encontram em um nível historicamente baixo, onde a parcela de juros a suportar é relativamente baixa, a moratória apenas de capital parece ser a melhor opção financeira para a generalidade das famílias portuguesas.

Para além de famílias e empresas, também os Estados necessitam de financiamento para conseguirem enfrentar as dificuldades orçamentais originadas por esta crise económica e financeira. A existência de elevado deficit orçamental em 2020 torna-se cada vez mais evidente, o que desencadeará um forte aumento da dívida pública portuguesa, que necessitará de ser financiada. O recentemente publicado relatório do FMI aponta para um deficit orçamental de 7,1% e uma dívida pública de 135% do PIB para Portugal em 2020. As questões centrais, hoje, em matéria de financiamento público, prendem-se em saber: Onde?; Como?; Quando?; Quanto?

Por múltiplas razões estratégicas, políticas, económicas e financeiras, torna-se pertinente a União Europeia implementar mecanismos de financiamento transversais aos Estados Membros fortemente afetados pela pandemia. A solidariedade europeia que, infelizmente, pouco foi vista na questão da saúde pública, deverá estar presente ao nível do financiamento. Muito se tem falado dos Coronabonds como mecanismo para esse financiamento, principalmente com maturidade a muito longo prazo, estimando-se que, se fossem emitidos a 50 anos, o seu impacto no orçamento europeu seria de apenas 0,2% ao ano. Os argumentos a favor dos Coronabonds parecem-me muito válidos na medida em que esta crise não resultou diretamente de uma inadequada política orçamental, nem de uma acumulação excessiva de défices externos pelos países, mas deriva, antes, de fatores exógenos. No Conselho Europeu do passado mês de março, com a Alemanha, a Holanda e a Finlândia à cabeça, foi rejeitada, até de uma forma muito desagradável, a criação de um mecanismo de financiamento conjunto entre os países da União Europeia, como seria, por exemplo, os Coronabonds.  A meu ver, um erro. Um enorme erro!!! Porém, o Conselho Europeu da passada quinta-feira já mostrou alguma abertura para a criação desse mecanismo comum de financiamento, apontando até o mês de maio para a sua definição, mas existem ainda muitas incertezas e indecisões em torno dessa possibilidade.   

Se cada país tiver de financiar os défices orçamentais derivados da crise do Coronavírus de uma forma isolada, os que apresentam maiores necessidades de endividamento, de que Portugal, Espanha, Itália e Grécia são alguns exemplos, terão de suportar taxas de juro bastante mais elevadas devido às elevadas e crescentes exposições ao risco que evidenciam. As agências de rating já começaram a ajustar em baixa a perspetiva do rating das dívidas soberanas. No caso particular da dívida portuguesa, a FITCH mostrou, bem recentemente, a sua preocupação com o aumento da exposição da mesma aos efeitos devastadores do Coronavírus sobre a economia, sendo a 22 de maio próximo efetuada uma nova avaliação e, se nada melhorar, o rating da dívida pública portuguesa vai mesmo cair. Essa provável queda no rating originará um aumento significativo dos custos a suportar com o financiamento da Nossa dívida pública. E que não exista a mínima dúvida, de que estes custos mais elevados de juros com o financiamento serão pagos por cada um dos portugueses. De uma ou de outra forma, cada um de Nós será “chamado” a pagar a sua quota parte nesse acréscimo de custo com os juros do financiamento do Estado. Torna-se, assim, importante e urgente a criação de um mecanismo comum de financiamento dos países europeus economicamente devastados pelo Coronavírus, chame-se-lhe Coronabonds ou outro qualquer nome. Este mecanismo comum de financiamento, para além de permitir a sustentabilidade financeira de um número alargado de países, contribuirá para a viabilidade e relevância da Europa enquanto grande bloco económico mundial, num período em que a bipolarização entre os EUA e a China parece estar a acentuar-se. Num período em que múltiplas empresas chinesas, privadas e públicas, se encontram a negociar aquisições, a preços de “saldo”, de empresas europeias relevantes e estratégicas, mas que se encontram financeiramente debilitadas devido à crise que atravessamos.

Por: Alexandrino Ribeiro*. (Professor na Escola Superior de Gestão do IPCA)

Foto: DR.

(* A redação do artigo de opinião é única e exclusivamente da responsabilidade do autor)

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