COVID-19: O antes, durante e o depois

Março 22, 2020 Atualidade, Concelho, Economia, Mundo, Opinião, Política
Pedro Soares de Sousa

Caros leitores,

O tema que me traz de volta à opinião escrita é o malfadado COVID-19, ou Coronavírus, como é mais propalado. Infelizmente, e pelas piores razões, é já um tema/assunto cliché.



Enquanto fico por casa (#EuFicoEmCasa), escrevo estas linhas para que, em conjunto, todos possamos fazer uma espécie de brainstorming sobre o assunto principal da nossa “Ordem do Dia”.

O país até iniciava bem o ano, com crescimento da economia, se bem que, na minha opinião, sustentado, em demasia, no consumo privado e, não, nas exportações. Falava-se do boom da construção e recuperação dos edifícios; do perigo de uma bolha imobiliária, com a especulação e os preços exorbitantes das habitações; da aprovação da eutanásia – e, agora, estamos todos com medo da morte! –; o Turismo seguia pujante, com as principais cidades já a discutirem “taxas e taxinhas” por causa do turismo desenfreado;  do orçamento de estado e cativações; do Centeno que estaria por dias enquanto Ministro das Finanças; da extrema-esquerda a aliar-se à direita para aprovar algumas medidas, como o baixar do IVA na eletricidade, “furando” a “geringonça”; do Ventura à Joacine, passando pelo “Chicão” e os putativos candidatos às Presidenciais, entre mais uma miríade de assuntos que iam cativando os portugueses e agarrando, muitos deles, às TV’s e às redes sociais. Já não falando, sequer, do desporto, com o futebol no “centro do terreno”, para não inflamar, já, os mais fanáticos adeptos!

Lá por fora, falava-se das negociações do Brexit que nunca mais chegavam, sequer, a “bom porto” (nem mesmo o de Calais!); das “imbecilidades” de alguns líderes mundiais; da catástrofe humanitária dos refugiados – nem quero imaginar como estarão aquelas pessoas, agora com mais um grande medo na sua vida, o de serem também contagiados –; a guerra comercial entre EUA e China começava a amornecer, com a UE a assistir “na poltrona” e a ser ultrapassada, a meu ver, em imensos dossiês, principalmente, os económicos e comerciais, entre muito mais.

Aqui pelo burgo, o partido à frente dos desígnios da Câmara Municipal de Barcelos entrava numa guerra fratricida, com as eleições internas, ficando mais evidentes as forças bipolarizadas; no maior partido da oposição ainda não tinha havido eleições internas – que deverão ser adiadas por causa da pandemia –, mas tinha havido eleições nacionais e congresso, com surgimento de “alianças imprevistas” e de novas figuras, inclusivamente, eleitas para o referido congresso; o IPCA continuava com o seu crescimento; iniciavam-se algumas obras e construções que têm levantado alguma celeuma; no Desporto, o Gil Vicente FC estava a fazer uma boa época, tendo em conta todas as nuances; o Óquei de Barcelos igualmente, tendo andado, mesmo, pelo 1º lugar e tornando a “catedral” quase intransponível; o Basquete de Barcelos terminava em 1º lugar na primeira fase e iniciava a segunda com nova vitória, sendo que as seniores femininas também estavam com boas performances; nos campeonatos distritais de futebol, as equipas barcelenses estavam a fazer, na sua generalidade, bons trajetos (vide o caso da Série A da 1ª divisão, com três equipas barcelenses a ocupar o pódio e o Ucha a liderar, sendo que todas as participantes de Barcelos estavam no top-10); no Futebol Popular, na 1ª havia grande disputa pelo campeonato e na 2ª havia líder destacado; o ciclismo começava as suas provas; o calendário de trails e provas de BTT começava a crescer, o Teatro e a Dança marcava pontos e levava o nome de Barcelos aos píncaros mediáticos…enfim, a Vida começava a “ir de vento em popa”!

E eis que, na mega populosa China, na mega industrializada e poluidora China, na “totalitária” China, surge um mega problema sanitário e de saúde, com nome de Coronavírus, que, depois, evoluiu para COVID-19. O Mundo pasmou, ficou a assistir como se o problema tivesse sido criado pelos chineses e por lá se mantivesse, com eles a terem que se amanhar com isso e a terem que solucionar a – agora – pandemia. Ou seja, o Mundo “marimbou-se” para algo que estava a caminho, como se de um asteroide em rota de colisão com a Terra se tratasse, só que, neste caso, o “rochedo” ia em rota de colisão com a China e, não, com os EUA, como se vê na maioria dos filmes “hollywoodescos”, onde tudo parece acontecer, bom ou mau, lá por “terras do Tio Sam”! Só que o vírus transportava-se muito facilmente e, muito facilmente, começou a chegar aos demais países, principalmente àqueles que – e muito bem – têm economias abertas e de mercado (as viagens dos players foram o mote). Infelizmente, a Europa tornou-se o maior foco da pandemia, com Itália à cabeça. Viam-se imagens de miúdos, muitos ainda imberbes, a furarem quarentenas para irem ter com umas garinas e beberem umas colas; viam-se jantaradas e esplanadas cheias na mesma; jogos de futebol a acontecerem na mesma, mesmo aqueles que se realizavam “no olho do furacão”…e as coisas, infelizmente, pioraram.

Por cá, mais uma vez, as redes sociais funcionavam ao contrário, com os “tugas” a escreverem, todos garbosos e, muitas vezes, jocosos, de que “em Portugal, 0 infetados” e a vida continuava. Até uma tal de Ministra da Agricultura dizia que o país poderia sair a ganhar com a crise sanitária na China, exportando mais produtos hortícolas (e ainda se mantém no cargo!!), fazendo lembrar o Turismo, em período anterior, que se andou a “vangloriar” de andar a conquistar mercados, aproveitando as crises e a falta de segurança resultantes da “Primavera Árabe”, da luta contra o DAESH ou das crises humanitárias. O problema entrou-nos país adentro, mas as noitadas e as praias continuavam “na berra”! Até que acordámos para a realidade, as redes sociais deixaram o “vangloriar” e, muitas vezes, o “chacotear”…para, e agora bem, alertarem, sensibilizarem e criticarem a falta de cuidados e de comportamento cívico e coletivo, enquanto povo, enquanto nação. Os profissionais de saúde deixaram de ser agredidos sempre que alguém, tresloucado, se sentia melhor a bater e a insultar, e passaram a ser os heróis; os encarregados de educação, que tanto reclamavam – e bem – pela abertura das escolas, agora pediam para que as mesmas fechassem, como veio a acontecer. O país está assustado, as pessoas estão assustadas (nem todas, como se vê – não sendo em Portugal, acho “execrável” o que se passou em Valência há uns dias atrás, com as filas de carros a quererem passar numa via que estava fechada e era suposto estarem de quarentena! Nem mesmo com figuras mediáticas, como futebolistas da equipa Che, a serem infetados, as pessoas “ganharam juízo”!) –, as atividades estão a parar – julgo que, daqui por 15 dias, mais terão que o fazer –, a sociedade está a enfrentar algo que nunca enfrentou. Pelo menos, as gerações mais novas, precisamente aquelas que, por norma, têm uma maior capacidade corporal e imunitária para aguentar a infeção. Os nossos anciãos, aqueles que nos receberam cá, aqueles que já passaram por guerras, ditaduras, privação de direitos, liberdades e garantias, veem-se, agora, a passar pelo mesmo, com o handicap de, agora, terem menos defesas e menos força para suplantar as dificuldades. E isso entristece-me imenso, porque fui educado, e formei a minha personalidade, a saber respeitar os mais velhos e a fazer por protegê-los. Mas sinto-me impotente, neste momento e nesse desígnio. Apenas posso pedir e sensibilizar para que tenham cuidado e para que todos nós os possamos ajudar! Aliás, TODOS NÓS devemos ter cuidado, TODOS NÓS devemos tomar medidas de precaução, TODOS NÓS devemos lutar contra esta maléfica pandemia.

Sei e tenho fé, tal como – espero – todos nós o tenhamos, que esta situação vai passar. De uma forma um pouco melhor, só depende de nós. Infelizmente, prevejo muitas dificuldades, que surgirão a jusante. Penso que as empresas vão demorar a recuperar encomendas, mesmo que, como sabemos, os stocks irão estar muito debilitados; as linhas de crédito lançadas pelo Governo, ainda deficitárias, a meu ver, não deverão ajudar muito porque é crédito e as empresas terão, mais cedo, ou mais tarde, que o pagar; o Turismo, que vinha pujante e desenfreado, vai demorar a recuperar, com o receio de novas pandemias e recaídas – prevejo que aqueles que, antes, pretendiam frear o turismo, principalmente, com taxas e afins, irão, futuramente, “rezar” para que o turismo volte ao caminho que vinha tendo –; os tais profissionais de saúde “heróis”, as escolas e os professores vão voltar a ser o alvo das fúrias momentâneas e de expiações de frustrações; a “limpeza” e despoluição momentânea do nosso planeta vai ser, bem depressa, esquecida e, até, esmagada por uma economia sedenta de crescimento que se vai marimbar para a Natureza e os níveis de CO2, importando-lhe, apenas, recuperar encomendas, lucros e, só depois, postos de trabalho…Em suma, julgo que vai ser uma espécie de “desmame” de toda uma civilização, que sai de um período de extrema privação e passa para outro onde a liberdade será o elixir da sua existência, um pouco à imagem daqueles povos e civilizações que viveram e experienciaram ditaduras e, depois, se viram envoltos em liberdade, que, em extremo, os fez “explodir” numa “freima” que acabou por prejudicar muitos pilares da sua sociedade e civilização.  

Porque este meu artigo já vai muito longo, e porque sinto que poderia dizer muito mais, decidi conter os meus sentimentos e pensamentos, numa espécie de “quarentena sentimental” porque não quero estar a preocupar e assustar, ainda mais, as pessoas que me estão a honrar com a leitura deste texto que escrevo. Também porque, como tudo isto anda, o que hoje escrevo aqui, amanhã já estará descontextualizado e desatualizado. Por ora, ainda não temos notícias de pessoas infetadas em Barcelos, mas os números que surgem, por exemplo, em Braga, poderão corresponder a alguém aqui do concelho. Já em Portugal, os números não param de subir e tendo em conta o que os especialistas dizem, com a Ministra da Saúde à cabeça, o pico será por 14 de abril. Ora, se analisarmos as contas, mesmo não sendo ases na matemática, compreendemos que os próximos dias/semanas vão ser cruciais, vitais mesmo. Julgo que o Governo, tendo em conta essas previsões, já deveria ter enrijecido as medidas para estes próximos dias/semanas, no sentido de se evitarem as tristes – e, igualmente, “execráveis” – imagens que pululam, ainda hoje – 22.03.2020 –, nas redes sociais e órgãos de comunicação social (que precisa “por os olhos” na reportagem da SKY NEWS em Itália e começar a mostrar certos aspetos que possam fazer “assustar”, A SÉRIO, os portugueses), de várias pessoas, mesmo em grupos superiores a dois indivíduos, a passearem, como se nada fosse, nos calçadões à beira-mar (julgo que algumas fotos são de Vila do Conde e Póvoa de Varzim, local onde, pasme-se, até surgiram alguns dos primeiros infetados! Luís Sepúlveda diz-vos algo??!!)! Como português, sei que, infelizmente, isto só “vai a mal”! Infelizmente…

Termino com um agradecimento a todos os profissionais que continuam “na linha da frente” a realizar as suas tarefas para que todos possamos sentir um menor impacto desta pandemia na nossa vida. Da saúde, do comércio, agricultura, recolha de lixo, agentes de segurança e socorro, da solidariedade, enfim…toda uma panóplia de pessoas e profissões que, neste momento mais negro, estão na luta – e na labuta – para que todos sintamos “uma pancada” menor! Muito, mas mesmo muito, OBRIGADO!



Estamos juntos, vamos conseguir ultrapassar isto! “Vai ficar tudo bem”! Tenham cuidado, previnam-se, não baixem as defesas…VAMOS PORTUGAL!! VAMOS MUNDO!! VAMOS HUMANIDADE!!

Por: Pedro Soares de Sousa* (Professor e Diretor do Barcelos na Hora).

Imagens: DR.

(* A redação do artigo de opinião é única e exclusivamente da responsabilidade do autor)

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