Descendentes da violência

Março 10, 2019 Atualidade, Concelho, Cultura, Mundo, Opinião
Iara Brito

O meio familiar é, geralmente, considerado um espaço privilegiado para o desenvolvimento físico, mental e psicológico dos seus membros, um lugar protegido e seguro. E quando não é assim?



Como referido na coluna anterior, esta publicação trataria da vitimação indireta da Violência Doméstica (VD), como é o caso da criança exposta a violência no seio familiar. Considera-se vitimação indireta aquela situação em que a vítima não sofre diretamente do ato criminal ou que este não é dirigido diretamente a si, porém sofre com a vítima direta (a quem é dirigido o ato criminoso).

Regista-se uma tendência de nos esquecermos dos danos causados ao menor que é exposto a violência. Mesmo que uma criança não sofra maus-tratos por parte do agressor, viver num ambiente violento prejudica a saúde e o desenvolvimento da criança.

No quadro científico e legal atual considera-se maltrato qualquer ato deliberado, por omissão ou negligência, originado por pessoas, instituições ou sociedades, que prive a criança dos seus direitos e liberdades ou que afete o seu desenvolvimento.

Os menores são também vítimas até porque as capacidades parentais são geralmente afetadas pela dinâmica familiar e relacional de conflito, baseada na desigualdade em contextos violentos.

As crianças podem ser consideradas vítimas de violência doméstica enquanto testemunhas desta, o que inclui presenciar ou ouvir os abusos infligidos sobre a vítima, ver os sinais físicos depois de episódios de violência ou testemunhar as consequências desta violência na pessoa abusada; como instrumentos de abuso, quando o/a agressor/a utiliza os filhos como forma de abuso e controlo; ou, por fim, como vítimas de abuso quando as crianças são física e/ou emocionalmente abusadas pelo agressor (ou até, em alguns casos, pela própria vítima).

O impacto da violência nos menores, a curto prazo, pode traduzir-se em problemas sociais e emocionais, tais como comportamento agressivo, ansiedade, retrocessos em competências sociais e emocionais, ansiedade e baixo desempenho escolar.

As crianças expostas à violência familiar necessitam de uma intervenção social integrada, não apenas quando são vítimas diretas, mas quando testemunham ou são expostas a violência conjugal.

Termino com alguns sinais que devemos levar em atenção e que poderão revelar a necessidade de sinalização. Atente quando a criança:

  • Desconfia dos contactos com adultos;
  • Está sempre alerta;
  • Tem mudanças severas e frequentes de humor;
  • Demonstra receio dos pais (quer chegar cedo à escola e sair o mais tarde possível);
  • Apreensiva quando outras crianças começam a chorar;
  • Demonstra comportamentos extremos: agressivo, destrutivo, excessivamente tímido ou passivo, submisso;
  • Apresenta dificuldades de aprendizagem não atribuíveis a problemas físicos;
  • Revela que é vítima de violência física;
  • Baixa autoestima e baixa perceção de autoeficácia;
  • Alterações no comportamento alimentar;
  • Comportamentos regressivos;
  • Comportamentos autodestrutivos;
  • Problemas de saúde mental;
  • Empobrecimento e/ou dificuldades no estabelecimento de relações interpessoais;
  • Afastamento em relação aos amigos.

Denuncie a violência e contribua para que menos uma criança seja abusada.

Por: Iara Brito* (Criminóloga)

(* A redação do artigo de opinião é única e exclusivamente da responsabilidade da autora)

Referências:

Gracia, J., Mesa, C., & Vila, D. (2013). A intervenção com crianças vítimas de violência doméstica interparental em Aragão (Espanha): resposta judicial e assistência social integrada. e-cadernos ces, (20).

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