Formação

Fevereiro 21, 2019 Atualidade, Concelho, Desporto, Mundo, Opinião
Hugo Pinto

Esta semana, e ainda antes de abordar o desempenho do nosso Glorioso, irei partilhar convosco alguns considerandos sobre e formação e o futebol juvenil. Para tal, terei de recorrer a uma história que testemunhei em primeira pessoa, já lá vão quase trinta anos.



Num determinado clube que ora oscilava entre os campeonatos distritais, ora a extinta 2ª divisão B, alguém acordou um dia e teve a fantástica ideia de apostar seriamente na formação de camadas jovens, de forma a criar jogadores de excelência para a equipa principal, sem que isso acarretasse um enorme esforço financeiro para o clube. Se bem pensou, melhor o fez. Deu então início um périplo por quase todos os clubes da região, procurando miúdos de 5, 6 e 7 anos, que pelo seu potencial permitissem criar uma equipa sólida para o futuro. Aliciados os pais e garantido o transporte, desde as mais variadas localidades da região, foi fácil levar os miúdos para serem futebolistas do clube grande da cidade. Porém, isso não era o bastante. Era necessário encontrar um treinador/formador que pegasse neste fantástico grupo e fizesse deles vedetas. E se acham que estas ideias resultaram no ridículo, desenganem-se. Foram um sucesso. Este treinador, com formação superior na área do desporto (coisa rara, na altura), pegou neste grupo de miúdos cheios de potencial e fez deles uma equipa vencedora. Ano após ano, ou eram campeões, ou subiam de categoria (dos campeonatos BB para os AA), sempre porque ficavam em primeiro lugar. E esta história repetiu-se praticamente desde os infantis até aos juniores.

Para que tenham uma real noção da qualidade destes “miúdos”, posso dizer-vos que um deles foi para o Benfica e outro alinha, ou alinhou até há pouco tempo, no Desportivo das Aves, uns quantos foram aliciados pelos olheiros do Porto.

Após terem ganho tudo durante os escalões de formação, foram estupidamente descartados ao chegar o primeiro ano de sénior, para dar lugar aos “picaretas” do costume. A brigada do reumático, com a ajuda dos seus empresários, convenceram ou persuadiram, de alguma forma, o presidente do clube a prescindir desta brilhante equipa em favor de uns “veteranos” cheios de “remendos”. O treinador/formador voltou à estaca zero, tendo acabado por se demitir dada a desilusão que sofreu fruto das decisões tomadas pela direção de então. Dos miúdos, pouco se sabe, à exceção dos dois casos que referi, sendo que outros acabaram por abandonar o futebol e ir “ganhar a vida” na fábrica mais próxima.

Ora, desta história resulta o seguinte: Um clube gastou milhares de contos (na altura, o escudo) durante mais de uma década a formar uma equipa de excelência, com miúdos e profissionais que dedicaram o melhor de si em busca do seu sonho, para no final deitar tudo ao lixo. Resta-nos imaginar o que teria acontecido se a direção do tal cube tivesse integrado o grosso desta equipa no plantel principal e dado uma oportunidade ao seu treinador/formador. E nem me vou alongar nas vantagens emocionais e psicológicas desta situação, pois teria de escrever uma tese, em vez de uma crónica.

E qual a relação de tudo isto com o nosso Benfica, perguntarão?

Os mais atentos já terão percebido onde quero chegar. O momento que se vive no Benfica atualmente deve-se muito ao treinador que agora abraçou o projeto. Bruno Lage, com a sua coragem e com a competência técnica (que parece ter), colocou finalmente o Benfica a jogar… à Benfica. Como se não bastasse, deixou meia Europa do futebol de boca aberta, ao apresentar-se para disputar uma eliminatória da Liga Europa perante o sempre difícil Galatasaray, que jogava em sua casa, com seis “miúdos” da formação. E cada craque melhor que o outro.

Ora, em meu entender, isto não acontece por acaso. Havia uma relação anterior de Bruno Lage com estes jogadores. E nem falo do conhecimento de facto. Falo mesmo da relação pessoal, de confiança, do efeito psicológico que existe sobre os jogadores ao saberem que o seu treinador sabe do que são capazes e acredita neles.

Talvez desta forma esteja inaugurado um novo paradigma para o mundo do futebol. Sempre acreditei que nas organizações (empresariais ou desportivas), o coeficiente emocional dos trabalhadores é fundamental. Uma empresa que mima os seus trabalhadores não tem só funcionários: tem amigos. Ninguém faz favores: todos ajudam. E no futebol, com tanto de emocional em campo, quem de melhor que um treinador com reconhecida competência e historial de crescimento com o grupo que lidera, para acompanhar jogadores desde a sua infância até ao momento em que irão brilhar na equipa principal?!? Jogadores e técnico. Fica a ideia…

Quanto ao jogo da jornada passada, mais uma agradável vitória. Sem o brilho entusiasmante dos dois jogos anteriores, mas por três bolas a zero. Não que se tenha jogado mal. Vá de retro o tempo em que Vitória era só mesmo nome de um treinador (ainda me dá azia, desculpem). Jogou-se bem, na casa de um adversário que vende caro os pontos que deixa levar. Acontece é que estávamos a ficar mal-habituados. De repente, uma vitória por três bolas, fora, até parece coisa pouca. Mas isto também é ser do Benfica. É ter esta fome de querer sempre mais e melhor. Se não for possível, que seja sempre pelo menos assim.

Na próxima jornada receberemos o Chaves. Uma equipa que, para mim, joga melhor futebol do que a posição na tabela indica. Portanto, cautela recomenda-se. Ainda assim, estou otimista e espero mais uma bela vitória e um excelente espetáculo de futebol. A ver vamos.

E pluribus unum

Viva o Benfica!

Por: Hugo Pinto*.

(* A redação do artigo de opinião é única e exclusivamente da responsabilidade do autor)

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