Jekyll & Hyde

Abril 12, 2019 Atualidade, Concelho, Desporto, Mundo, Opinião
Hugo Pinto

The stange case of Dr Jekyll & Mr Hyde (O Estranho caso de Dr. Jekyll & Sr. Hyde) é o título de um romance gótico escrito pelo brilhante autor escocês Robert Lewis Stevenson, no idos de 1886. Genericamente, trata-se de uma história em que um brilhante cientista, Dr. Jeckyll, sofre de um extremo caso de dupla personalidade, em que durante a noite se transforma no terrível assassino Sr. Hyde. Essa transformação é de tal forma extrema, que afeta até a fisionomia do brilhante doutor, quando se transmuta no terrível senhor Hyde.



O nosso mais recente Benfica lembra-me muito esta história. Ora temos um jogo em que se exibe um brilhante Dr. Jekyll, ora temos outra em que somos forçados a gramar com o terrível Sr. Hyde. No jogo com o Feirense fomos brindados com este último. Foi, deveras, um jogo terrível. E não, a vitória por 1-4 não disfarça a péssima exibição. E que moral teria eu para criticar o obtusíssimo cinismo de andrades e lagartos, no que toca a jogo sujo, se fosse agora alinhar pelo mesmo diapasão? Não. O meu compromisso é para com o que os meus olhos veem e para com a minha consciência. Como recuso ser mais um carneiro no rebanho da estupidez avulsa, tenho de dizer que em boa verdade o Feirense foi prejudicado e o Benfica, DESTA VEZ, teve colinho, sim. A justiça pura e dura impõe que se diga que o Feirense, ao intervalo, devia estar a ganhar por dois, fruto da sua vontade de querer vencer, aliado à arrogância de vedetas que ainda nada ganharam, a não ser estar em igualdade pontual com o campeão em título.

Há coisas que no futebol são imensuráveis. Aquele encosto dentro da área adversária, a intenção de jogar a bola com a mão e o nível anímico e de disponibilidade psicológica dos jogadores, são disso mesmo bons exemplos. Mas, se quisermos ser justos e pensar de forma impoluta, basta fazer jus ao adágio anglo-saxónico que nos sugere put yourself in someone´s shoes. (corresponde aproximadamente ao português “põe-te no lugar dele”). Pensem, quantas vezes, em situações do nosso dia a dia não, somos tentados a atirar a toalha ao chão. Quantas vezes não concluímos que, façamos o que fizermos, não vale a pena…E não vale mesmo. Coisas há, que nem com todas as forças e vontades do mundo se podem mudar.

Dizer que o golo anulado ao Feirense e o penalty marcado sobre Pizzi não alterariam o jogo, é tão falacioso como dizer o seu contrário. Mas, se eu fosse jogador do Feirense, andasse desde miúdo a lutar por ser jogador da bola, e percebesse, uns anos mais tarde, que correr atrás da bola e jogar o meu melhor é menos determinante do que uma arbitragem manhosa, provavelmente, também me deixaria tomar pelo desânimo. E, provavelmente, acabaria um jogo que hipoteticamente poderia ganhar, a perder por 1-4.

A questão que aqui exponho não se repercute apenas no Benfica. O mundo está podre. Desta vez houve colinho, mas (e é sobretudo isto que venho atacando) há colinho também para o Porto. E muito. Ocasionalmente, há colinho para o Sporting. E este problema vai muito além do futebol. Trata-se, apenas, de uma crise social de uma absoluta subversão de valores. Só há corrupção porque permitimos a existência de corruptores e corrompidos. E não, não é só em Portugal. O problema é mundial. Em Portugal só passou a haver menos vergonha (para não dizer que passou a haver a necessidade) de ser corrupto. Entristece-me. Envergonha-me.

Contra o Eintracht Frankfurt fomos brindados com a aparição de Dr. Jeckyll. Ainda não é o melhor Benfica a que já assistimos, mas foi bastante melhor daquele a que assistimos contra o Feirense. Mais organizados, com o João Félix a saber, de novo, como se joga bom futebol, lá fomos marcando quatro valiosos golos. Pena termos sofrido dois, em casa, mas ainda assim considero que estamos com um pé nas meias finais. Mais: arrisco a dizer que chegar à final e disputar o trofeu não é um sonho impossível. Será difícil, sim. Mas dos fracos não reza a história. E, numa crónica onde abundam as citações, termino com o meu lema pessoal, que roubei a Virgílio:

Fortuna audaces juvat

Viva o Benfica. E pluribus unum.

Por: Hugo Pinto*.

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