Mulher-Cidadã

Março 8, 2019 Atualidade, Concelho, Cultura, Mundo, Opinião
Raquel dos Santos Fernandes

Comemorado há mais de 100 anos, o 8 de março marca a luta contínua da Mulher pelo direito ao voto, ao trabalho, à ocupação de cargos públicos e pelo fim da discriminação em feição do género. Na medida em que a Mulher continua vulnerável em muitos dos seus direitos, a simbologia de uma data para relembrar as sociedades da necessidade de reconhecer essas desigualdades (ao mesmo tempo que se celebram as conquistas das mulheres que superaram tais barreiras) faz do Dia Internacional da Mulher um momento importante para a reflexão dos progressos alcançados, ao mesmo tempo que se reivindica a necessidade de mudança.



A cooptação do Dia Internacional da Mulher pelas ordens tradicionais que constituem as sociedades e os Estados abafou, no entanto, todas estas afirmações e camuflou-as de um modo tão apolítico que tais questões parecem insignificantes quando comparadas à cultura tradicional e de consumo que apenas contribui para intensificar estereótipos de género. Ou teremos já colocado um ponto final em todas as formas de discriminação, todas as formas de violência (veja-se, por exemplo, o tráfico e a exploração sexual) e todas as formas nocivas exercidas sobre a Mulher, como os casamentos forçados e a mutilação genital feminina? Será a disparidade salarial entre os sexos uma falácia e terão as mulheres garantido a participação plena e efetiva em todos os níveis de decisão? Como tal, sendo que nenhuma destas questões foi ultrapassada, a relevância política deste dia não pode ser descartada, até porque qualquer reivindicação do fórum da cidadania será sempre passível de uma forma de politização.

Assinalar esta data não deve, porém, traduzir-se numa guerra dos sexos que traça um combate entre mulheres e homens (os quais também vêm os seus feitos assinalados a 19 de novembro, Dia Internacional do Homem). Trata-se de defender um lugar mais incluso da Mulher que procura a igualdade no seu status social e político, assim como nos seus direitos e nas suas oportunidades. É uma luta pela interação entre homens e mulheres, pelo fim dos processos de dominação e subordinação historicamente vivenciados e pela organização da estrutura das sociedades e das produções culturais marcadas pelas questões de género que tanto afetam o modo como os homens e mulheres são socialmente tratados e estereotipados.

É demonstrar que os efeitos físicos da diferença biológica foram exagerados para manter um sistema patriarcal e confiscar a Mulher a uma análise sociológica restrita às suas funções de mãe e esposa e da qual se exclui um papel da mulher enquanto cidadã. É celebrar os atos de coragem e de determinação das mulheres que desempenharam um papel extraordinário nas suas sociedades e é reivindicar a construção de sistemas mais inclusivos, mais eficientes, mais equitativos e mais igualitários.

Por: Raquel dos Santos Fernandes* (Doutoranda de Ciência Política).

(* A redação do artigo de opinião é única e exclusivamente da responsabilidade da autora)

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