O inesperado aconteceu

Maio 26, 2020 Atualidade, Concelho, Mundo, Opinião
Cláudia Velez

É com o sentimento de poder ajudar alguém, que hoje estou aqui para vos dar o meu testemunho.

Como já vos contei no artigo anterior, sou enfermeira e estou na batalha da frente a cuidar de doentes com COVID-19. Todos os dias visto os tais fatos de “astronauta”. Gosto de chamar assim, pois parece que vou entrar numa nave espacial e isto dá-me um sentimento de poder, poder ir mais longe, ir além limites, o que sinto muitas vezes.



Dentro do hospital, uso máscara, tento não tocar em nada, exceto o registo biométrico, em que sou “obrigada” a fazê-lo, o que me leva a desinfetar de imediato as mãos com alguma voracidade, pois não sendo visível, tenho a crença que naquele preciso objeto deve estar uma enorme concentração de vírus, todos à espera das mãos dos profissionais. Deixei de utilizar o elevador, uso sempre as escadas até ao 5º andar. Quando termino o turno, tomo de imediato um duche e na minha mente todas as medidas de proteção são aplicadas. Como tenho o privilégio de morar mesmo ao lado do hospital, ando sempre a pé e após alguns metros estou em casa. Antes de entrar em casa, retiro os sapatos, que vão diretamente para a varanda e lá ficam durante toda a noite. Lavo as mãos antes de tocar no que quer que seja, retiro toda a roupa que vai para lavar e lavo novamente as mãos. Esta tem sido a minha rotina desde que tudo isto começou.

A partir do momento em que o meu contacto com doentes com COVID-19 começou a ser diário, senti a enorme responsabilidade, enquanto cidadã, de proteger os outros de mim. Até prova em contrário, somos todos portadores do vírus. Eu, sendo profissional de saúde e estando a fazer parte desta batalha, assumi a responsabilidade de usar máscara, em todos os espaços públicos, para não contagiar ninguém.

Muitos são os sentimentos que invadem a minha mente diariamente, desde o poder errar em algum procedimento no hospital e ficar contaminada, não estar a ser suficientemente cautelosa em casa, mesmo mantendo a distância de proteção, não dormir com o meu marido, não ter contacto físico com o meu filho e marido, familiares e amigos. Mesmo assim, o pensamento “será que estás a protegê-los o suficiente?” é um pensamento permanente.

No entanto, quando menos esperamos, tudo muda. Dia 16 de abril, acordei e percebi que tinha perdido o olfato e o paladar. Após partilhar com alguns colegas e estes me terem incentivado a comunicar à Saúde Ocupacional, fui aconselhada a fazer o teste. E é quando, sem abrires a porta, o inesperado entra mesmo sem ser convidado: o teste deu positivo. Tudo estremece e percebes que, afinal, o vírus também te toca a ti. Sim, tocou-me a mim, mesmo com todas as medidas de proteção, até talvez, por vezes, exageradas, por isso também te pode tocar a ti. Percebi que mesmo com todas as medidas de proteção, estas não foram suficientes, mas uma coisa me deixou muito feliz, o facto de ter decidido usar sempre máscara também no exterior do hospital, fez com que os espaços que eu frequentava com alguma regularidade, desde o supermercado, à frutaria, não fossem sinalizados por terem tido contacto comigo e isso foi algo que me fez perceber a tamanha responsabilidade e dever que temos em zelar pela saúde de todos, é um dever cívico.

E numa fase da tua vida que parece que perdes o chão, eu questiono-me o que eu tenho a aprender com isto. Como em vários momentos de dificuldade que já passei na minha vida, tento sempre ver o lado positivo do que está a acontecer e, muitas vezes, mesmo sem tu procurares, a vida mostra-te isso. Então, percebo que todas as pessoas têm um lado bom, aquele lado da bondade e vêm a mim com atitudes que me confortam a alma e o coração. A senhora da frutaria que me traz fruta e legumes à porta; a senhora do supermercado que disponibiliza de imediato a sua ajuda, tal como o senhor do Takeaway que ajuda a que não tenha de cozinhar em todas as refeições. Alguém especial que se prontifica, mesmo sem pedires nada, a te trazer um complemento para reforçar o teu sistema imunitário, o pão que te chega logo pela manhã por alguém que, dentro de si, sempre teve este lado humano, não esquecendo as conversas telefónicas, mensagens de carinho das pessoas que sabem que as trago no coração.

Após isto tudo, não há outro modo de reagir a esta doença, senão tratá-la com o carinho e amor que eu estou a receber. Deste modo, está tudo a correr muitíssimo bem, o olfato e o paladar melhoraram bastante, mas mais nada além disso. Sinto-me ótima e, acima de tudo, sinto que estou rodeada de amor e carinho e tenho a oportunidade de, hoje, estar aqui e dizer-vos que, após 6 semanas, o teste deu negativo.

Acalma a mente, “rodeia-te” de amor e carinho…sim, porque mesmo com distância, o amor chega até ti.

Fecha os olhos e sente o meu abraço.

Juntos vamos vencer esta batalha, vamos todos ficar bem.

Por: Cláudia Velez* (Coach, Enfermeira e Terapeuta)

Foto: DR.

(* A redação do artigo de opinião é única e exclusivamente da responsabilidade da autora)

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