Porque devemos votar

Outubro 5, 2019 Atualidade, Concelho, Mundo, Opinião, Política
Pedro Sousa

Caros leitores,

Desengane-se quem pensa que venho aqui escrever uma ode aos benefícios da Democracia, com dados, resultados e percentagens. Acho que todos sabemos bem e temos a consciência de como é bom viver numa Democracia. Felizmente, nunca tive de coexistir com uma ditadura, mas os meus antecessores sim e bem que os ouço contar tudo aquilo de que eram privados. Mas também não venho aqui atacar o nosso sistema político. Quantas vezes ouvimos dizer (mais “da boca para fora”): “Era colocar uma bomba na Assembleia da República e com eles todos lá dentro!”? Seria essa a solução? Iríamos conseguir viver numa anarquia? Conseguiríamos passar de um regime de isenção de direitos para outro sem qualquer regulação dos mesmos? Como asseguraríamos uma das pedras basilares, para mim, da Democracia: a minha liberdade acaba quando começa a do meu vizinho (sendo o “vizinho”, a outra pessoa, o outro concidadão)?



Também é verdade que a política e, nomeada e principalmente, os políticos, não têm ajudado muito ao aproximar dos seus cidadãos às decisões políticas (eleições, referendos) ou, até, à participação ativa e cívica. Corrupção, compadrios, interesses, decisões mal pesadas e tomadas, no mínimo, de “ânimo leve”, contribuem para este afastamento, cada vez maior, dos cidadãos em relação à política e às instâncias democráticas (e nem vamos entrar pela Justiça!). Receio que um dia, os populismos tomem conta dos nossos desígnios, das nossas sociedades, sejam eles de extrema esquerda ou extrema direita.

Por tal, eu opto por votar. Sempre o fiz. Mesmo que para isso tivesse que fazer uma viagem de cerca de 230km, de autocarro, precisamente no exato dia de ir a votos, para conseguir votar (Presidenciais de 2001). Mesmo tendo que ir duas vezes votar (ou escolher a resposta pretendida) no mesmo ano (Referendo à despenalização do aborto – junho de 1998 – e Referendo à regionalização – novembro de 1998). Mesmo estando afastado da minha terra (ensino superior e, depois, emprego) durante 10 anos, votei sempre. Fi-lo porque queria ter a minha voz, mesmo sentindo que ela não seria “ouvida”. Fi-lo porque não queria ter que ouvir: foste votar? Não? Então não tens moral para criticar!

Aliás, usei esta mesma frase, poucos anos após o primeiro referendo sobre a despenalização do aborto, em 1998, que ditou um “Não”, por uma “unha negra” [“Não” = 50,9%; “Sim” = 49,1%], num dia solarengo (28 de junho), em que muita juventude, por exemplo, optou pela praia e pelo lazer, “marimbando-se” para o Referendo, pensando, quiçá, que “estava no papo” e o “Sim” ganharia ou que alguém faria a função de escolher por sua vez. Mas não o fez! E aquilo que parecia óbvio (a vitória do “Sim”), afinal não o foi. Usei-a (essa frase) quando, em conversa de café com um amigo, este atirou um “Somos mesmo um país de retrógrados! Onde já se viu o aborto não ser despenalizado?!” Ao que retorqui, sem ser de uma forma retórica (acreditem!): “Foste votar?” “Não”, disse ele! “Então que moral tens tu para criticar quem foi? Mesmo que tivesse ido mal e escolhido o oposto à tua opinião?!”. Resta claro que ninguém, provavelmente, gostaria de ouvir uma tirada destas. Mas, infelizmente, há ainda quem não se importe…há quem não ligue! Modéstia à parte, eu não sou assim…E você? É? Vai deixar os outros escolherem por si? Vai abster-se de um direito seu para, depois, por exemplo, passar mais uns anos a criticar o sistema, os políticos, os partidos, a Democracia, nomeadamente, nas redes sociais? Por favor, não faça isso! Vote, escolha, tenha voz, decida (mesmo que a vitória recaia no oposto ao que votou), diga “presente”.

As gerações que nos receberam e nos deram a Liberdade e a Democracia, merecem isso de nós! As gerações a quem deixaremos este nosso “cantinho à beira-mar plantado”, merecem isso de nós! Vamos todos votar amanhã?

Termino com umas citações, que reconhecerá certamente:

Artigo 10.º

Sufrágio universal e partidos políticos

1. O povo exerce o poder político através do sufrágio universal, igual, direto, secreto e periódico, do referendo e das demais formas previstas na Constituição.

2. Os partidos políticos concorrem para a organização e para a expressão da vontade popular, no respeito pelos princípios da independência nacional, da unidade do Estado e da democracia política.

(…)

Artigo 48.º

Participação na vida pública

1. Todos os cidadãos têm o direito de tomar parte na vida política e na direção dos assuntos públicos do país, diretamente ou por intermédio de representantes livremente eleitos.

2. Todos os cidadãos têm o direito de ser esclarecidos objetivamente sobre atos do Estado e demais entidades públicas e de ser informados pelo Governo e outras autoridades acerca da gestão dos assuntos públicos.

(…)

Artigo 49.º

Direito de sufrágio

1. Têm direito de sufrágio todos os cidadãos maiores de dezoito anos, ressalvadas as incapacidades previstas na lei geral.

2. O exercício do direito de sufrágio é pessoal e constitui um dever cívico.

(…)

Artigo 121.º

Eleição

(…)

3. O direito de voto no território nacional é exercido presencialmente.

(in: Constituição da República Portuguesa – VII Revisão Constitucional, 2005).

Obrigado pela atenção. Vemo-nos nas urnas?!

Por: Pedro Sousa* (Professor e Diretor do Barcelos na Hora)

(* A redação do artigo de opinião é única e exclusivamente da responsabilidade do/a autor/a)

Foto: DR.

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