Recuperação Pessoal na Doença Mental

Abril 12, 2017 Atualidade, Educação, Opinião
ritarodrigues
Rita Rodrigues

Falar de saúde mental, do ponto de vista médico, é falar da ausência de doença ou erradicação da doença mental. Porém, a doença mental é uma construção teórica que depende de construções sociais e antropológicas, e não uma entidade patológica com existência própria. Em saúde mental, a existência de elementos capazes de gerar doença mental podem estar presentes sem que isso signifique a existência de doença, uma vez que, o seu desenvolvimento está dependente da inter-relação de determinados fatores, em que um indivíduo, face a determinados fatores de risco, desenvolve perturbação e outro perante os mesmos fatores não desenvolve (Melo e Moreira, 2005).




Tenho uma doença mental posso recuperar? Quem tem um diagnóstico do foro psiquiátrico, pergunta-se constantemente sobre a possibilidade de recuperação.

De acordo com o guia para profissionais de saúde mental, 100 modos de apoiar a recuperação pessoal (2009), existe dois tipos de recuperação na saúde mental: a recuperação clínica e a recuperação pessoal. Por recuperação clínica entende-se o tratamento de sintomas, o restabelecer o funcionamento social e outros modos de “recuperar a normalidade”. Por recuperação pessoal, Anthony (1993) descreve como sendo “um processo único, profundamente íntimo, de transformação das atitudes, valores, sentimentos, objetivos, aptidões e/ou funções das pessoas. É uma forma de viver uma vida satisfatória, esperançosa e contribuir para a vida mesmo dentro dos limites impostos pela doença mental. A recuperação pessoal envolve o desenvolvimento da nova orientação e objetivo geral na vida de um indivíduo enquanto se supera os efeitos catastróficos da doença mental”.

Existem quatro tarefas para a Recuperação pessoal:

1.ª Desenvolver uma identidade positiva independentemente de ser uma pessoa com uma doença mental. Os elementos da identidade considerados fulcrais para uma pessoa, podem não o ser para outra, ou seja, apenas o próprio pode decidir o que constitui uma identidade positiva;

2.ª Enquadrar a doença mental: desenvolvimento de um significado satisfatório a nível pessoal, ou seja, o enquadramento da experiência pessoal que os profissionais interpretam como doença mental. Isto requer tirar sentido da experiência de modo a visualizá-lo como uma parte e não a totalidade da pessoa;

3.ª Auto-gerir a doença mental: não significa que se decida a fazer tudo sozinho(a), mas antes que se é responsável pelo bem-estar próprio, incluindo solicitar ajuda e apoio dos outros quando necessário;

4.ª Desenvolver papéis sociais valorizados: ou seja, aquisição de novos, modificados ou anteriores papéis sociais valorizados, estes podem não estar relacionados com a doença mental. Os papéis sociais valorizados providenciam alicerces para o surgimento da nova identidade da pessoa em recuperação.

Assim, apoiar a recuperação pessoal envolve um afastamento do tratamento centrado apenas na doença, no sentido da promoção do bem-estar sendo necessário uma compreensão global da pessoa.

“No fundo, não descobrimos na pessoa com experiência de doença mental nada de novo ou desconhecido: encontramos nele as bases da nossa própria natureza.” Carl Jung.

Por: Rita Rodrigues*. (Psicóloga e Diretora Técnica da Unidade Paul Adam Mckay da Associação RECOVERY IPSS)

(* A redação do artigo de opinião é única e exclusivamente da responsabilidade do/a autor/a)



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