Religião, Política e Relações

Abril 1, 2018 Atualidade, Concelho, Cultura, Mundo, Opinião
Raquel dos Santos Fernandes

Religião e Política protagonizam uma das relações mais complexas gozadas pelas sociedades e pelos Estados que as representam. Sendo este um espaço dedicado à Política e pela quadra religiosa em que nos encontramos, seguem-se uma breve reflexão sobre a relação Religião-Política e sobre a influência das estruturas sociais na forma como nos posicionamos e abordamos a Religião, a Política e a sua relação.



As sociedades contemporâneas são, hoje, muito mais multiculturais e a esfera pública possui uma forte presença de cidadãos praticantes e crentes de religiões diferentes. Primeiro, este multiculturalismo invalida a aplicação de pressupostos que, até então, num contexto monocultural, seria válida, e, segundo, no que respeita a esfera internacional, e nem sequer entrando pela acessão da violência baseada na religião, basta notar que, politicamente, no pós-11/09, passou a existir um foco crescente na Religião.

Este contexto revela-se ainda mais significativo quando aplicado à secularização – a principal questão presente na relação Religião-Política – que remove do domínio das instituições religiosas as secções da sociedade e da cultura. E, à medida que aumenta o foco nesta relação, aumenta também a quantidade e a dissonância das diferentes perspetivas e dos diferentes olhares sobre o processo de secularização. Se, no domínio da Política Religiosa, a religião é vista no sentido convencional e a preocupação recai sobre as posições políticas dos dogmas religiosos fundamentais e a forma como o secularismo regula este processo, a Religião Política operacionaliza a construção de uma religião própria, a Religião de Estado. Aqui, passa-se a lidar com uma forma de religiosidade que sacraliza o Estado, uma religião criada pelo Estado e que rompe com a perspetiva convencional de olhar a Religião.

Ao mesmo tempo que o multiculturalismo e o desenvolvimento económico, político e social criaram as condições necessárias para a afirmação da secularização, permitiram que diferentes abordagens sobre este processo fossem surgindo. Entendimentos diferentes sobre o que é a Religião, o que é a Política e sobre o modus operandi da secularização criam diferentes relações entre a Religião e o Política. Será esta relação que ditará o caminho da liberdade de consciência e da separação da Igreja do Estado, assim como a atenção substancial que é dada às necessidades específicas de grupos religiosos minoritários.

Distinguir entre o que é religioso e o que é político torna-se assim incontestável. Quando essa possibilidade não é tida em conta, a Religião da Política ou a Política da Religião tomam o seu lugar, e o que conhecemos como sendo a Religião e a Política deixa de existir.

Por: Raquel dos Santos Fernandes*.

(* A redação do artigo de opinião é única e exclusivamente da responsabilidade da autora)

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