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Bottom-up

Religião, Política e Relações

Abril 1, 2018 em Atualidade, Concelho, Cultura, Mundo, Opinião port barcelosnahorabarcelosnahora
Raquel dos Santos Fernandes

Religião e Política protagonizam uma das relações mais complexas gozadas pelas sociedades e pelos Estados que as representam. Sendo este um espaço dedicado à Política e pela quadra religiosa em que nos encontramos, seguem-se uma breve reflexão sobre a relação Religião-Política e sobre a influência das estruturas sociais na forma como nos posicionamos e abordamos a Religião, a Política e a sua relação.



As sociedades contemporâneas são, hoje, muito mais multiculturais e a esfera pública possui uma forte presença de cidadãos praticantes e crentes de religiões diferentes. Primeiro, este multiculturalismo invalida a aplicação de pressupostos que, até então, num contexto monocultural, seria válida, e, segundo, no que respeita a esfera internacional, e nem sequer entrando pela acessão da violência baseada na religião, basta notar que, politicamente, no pós-11/09, passou a existir um foco crescente na Religião.

Este contexto revela-se ainda mais significativo quando aplicado à secularização – a principal questão presente na relação Religião-Política – que remove do domínio das instituições religiosas as secções da sociedade e da cultura. E, à medida que aumenta o foco nesta relação, aumenta também a quantidade e a dissonância das diferentes perspetivas e dos diferentes olhares sobre o processo de secularização. Se, no domínio da Política Religiosa, a religião é vista no sentido convencional e a preocupação recai sobre as posições políticas dos dogmas religiosos fundamentais e a forma como o secularismo regula este processo, a Religião Política operacionaliza a construção de uma religião própria, a Religião de Estado. Aqui, passa-se a lidar com uma forma de religiosidade que sacraliza o Estado, uma religião criada pelo Estado e que rompe com a perspetiva convencional de olhar a Religião.

Ao mesmo tempo que o multiculturalismo e o desenvolvimento económico, político e social criaram as condições necessárias para a afirmação da secularização, permitiram que diferentes abordagens sobre este processo fossem surgindo. Entendimentos diferentes sobre o que é a Religião, o que é a Política e sobre o modus operandi da secularização criam diferentes relações entre a Religião e o Política. Será esta relação que ditará o caminho da liberdade de consciência e da separação da Igreja do Estado, assim como a atenção substancial que é dada às necessidades específicas de grupos religiosos minoritários.

Distinguir entre o que é religioso e o que é político torna-se assim incontestável. Quando essa possibilidade não é tida em conta, a Religião da Política ou a Política da Religião tomam o seu lugar, e o que conhecemos como sendo a Religião e a Política deixa de existir.

Por: Raquel dos Santos Fernandes*.

(* A redação do artigo de opinião é única e exclusivamente da responsabilidade da autora)

Contrarrevolução Iraniana

Fevereiro 11, 2018 em Atualidade, Concelho, Cultura, Mundo, Opinião port barcelosnahorabarcelosnahora
Raquel dos Santos Fernandes

O Irão é o único país do mundo a impor a obrigatoriedade a todas as mulheres muçulmanas e não muçulmanas o uso do véu islâmico. Países como o Afeganistão ou a Arábia Saudita seguiram uma rota semelhante, quer pelo domínio talibã que se viveu no Afeganistão, quer pela matriz cultural Saudita. No Irão, todavia, desde 1983 que a “lei do véu” deixou de ser apenas uma regra hijab e passou a punir, legalmente, as mulheres que a desafiam.



O Irão é um Estado teocrático onde, apesar da realização de eleições, a religião se sobrepõe ao sistema político. O Conselho dos Guardiões, órgão do sistema político que assegura a concordância das leis aprovadas com a lei religiosa, apenas autoriza a candidatura dos apoiantes ao sistema teocrático. O Presidente Hassain Rohani, apontado como uma via moderada entre os políticos conservadores e reformistas iranianos, foi eleito em 2013, tendo sido reconduzido ao cargo nas eleições de 2017. Com a candidatura dos reformistas vetada pelo Conselho dos Guardiões, Rohani surgia como a opção menos inflexível.

A Revolução Iraniana de 1979, que colocou um ponto final na monarquia autocrática pró-Ocidental do Xá Mohammad Reza Pahlevi, trouxe à cena política do Irão Ruhollah Khomeini e a ideia de uma identidade iraniana bastante própria, sem qualquer interferência ocidental, onde o fanatismo absoluto e os princípios religiosos induziam uma reformulação da sociedade iraniana. Como qualquer transformação top-down (de cima para baixo), seja ela democrática ou autoritária, esta imposição do Estado sobre a sociedade, mais cedo ou mais tarde, torna-se alvo de contestação. E, hoje, principalmente em zonas urbanas, o “chador” começa a ser substituído por jeans, os véus caem sobre os ombros e o rosto maquilhado das mulheres mostram que a sociedade iraniana renasceu. Não evoluiu, renasceu. O que está a acontecer no Irão, esta transformação bottom-up (de baixo para cima), é prova do renascimento da sociedade civil para a vida política e social do país. Mais que qualquer manifestação feminista, próxima ao ocidente e à modernização, esta transformação é representativa do ressurgimento da cultura política iraniana e da tentativa de reformulação da relação entre o Estado e a sociedade.

Os protestos contra as regras hijab rompem com a dinâmica tradicional do poder exercida pelo Estado. Se, aquando a sua introdução, estas regras eram representativas do modo ideológico de governo imposto pelo Estado teocrático, a oposição que hoje lhe é feita pode ser encarada como uma contrarrevolução bottom-up, que mais que se opor ao governo, se opõe à conceção de Estado que Khomeini criou e ao envolvimento dos agentes políticos na vida privada dos cidadãos.

Em parte, esta contrarrevolução da sociedade iraniana ajuda a explicar o mote da crónica que aqui assino. Como dizia Bernie Sanders, na corrida às primárias do Partido Democrata, “as verdadeiras mudanças nunca ocorrem de cima para baixo, mas sempre de baixo para cima”. Estas são as mudanças que perduram, que reformulam as relações Estado-sociedade e que fazem renascer a cultura política dos Estados.

Por: Raquel dos Santos Fernandes*.

(* A redação do artigo de opinião é única e exclusivamente da responsabilidade da autora)

O ano (que não foi) de Donald Trump

Dezembro 31, 2017 em Atualidade, Concelho, Mundo, Opinião, Política port barcelosnahorabarcelosnahora
Raquel dos Santos Fernandes

Nos anos 20, incentivado pelo antissemitismo sofrido pelos judeus na Europa, o desejo de criar um Estado judaico ganhava cada vez mais força. Um forte movimento migratório judaico, alimentado por aspirações sionistas, chegava então ao território otomano da Palestina e logo se iniciou uma onda de resistência entre as comunidades locais. Quando o Império Otomano foi desintegrado, após a Primeira Guerra Mundial, a Liga das Nações mandatou o Reino Unido para administrar o território que, após a Segunda Guerra Mundial e depois do Holocausto, a 14 de maio de 1948, se tornaria Israel. No dia seguinte, Egito, Jordânia, Síria e Iraque invadiam o país.


Quando o presidente Trump declarou, oficialmente, Jerusalém como capital de Israel, não só pôs em causa décadas de diplomacia dos EUA, como ameaçou desencadear novas agitações no mundo muçulmano. Como em 1948, como em 1967 e como em 1973. Ainda antes da fundação do Estado de Israel, o conflito israelo-palestiniano já se havia tornado num problema regional, mas Trump parece não conhecer bem a dimensão deste conflito. Ou melhor, talvez Trump, por entre o seu véu megalómano, não se conheça a si mesmo.

Esta é a quarta vez que Trump inicia uma grande mudança que coloca a América em desacordo com um consenso internacional significativo. Claro que vários presidentes americanos assumiram posições que desafiaram o consenso global, mas a diferença é que estes sempre se aliaram a outras grandes potências antes de atuarem e, como resultado, a América foi capaz de liderar, criar impulso e alterar o comportamento internacional. Trump, ao contrário, atuou, sem antes criar essas alianças e o resultado foi a inexistência de uma medida persuasiva que tornasse, novamente, a América grande.

Não surpreendentemente, ninguém o seguiu e nada mudou. As palavras de Washington foram ignoradas, os EUA seguem sozinhos e outros Estados vão tomando as rédeas da liderança global: a China no Pacífico, a Rússia no Oriente Médio e o acordo de Paris decorre de acordo com o previsto, com todos os Estados, à exceção dos EUA, a assumirem uma política ambiental sustentável.

Trump, simplesmente, não foi levado a sério e a América é cada vez mais um alvo de ridicularização do que de admiração.

Muitos outros acontecimentos políticos marcaram o ano de 2017. Poderia ter-me debruçado sobre qualquer um deles, mas parece-me que terminar 2017 com a intuição que este não foi o ano de Donald Trump, poderá ser um bom prognóstico para 2018!

Por: Raquel dos Santos Fernandes*.

(* A redação do artigo de opinião é única e exclusivamente da responsabilidade do/a autor/a)

Herói ou anti-herói?

Novembro 5, 2017 em Atualidade, Concelho, Mundo, Opinião, Política port barcelosnahorabarcelosnahora
Raquel dos Santos Fernandes

Som una nació. Este era o mote de uma avolumada manifestação organizada em Barcelona, a 10 de julho de 2010, contra a decisão do Tribunal Constitucional em arquivar um recurso de inconstitucionalidade na sequência da aprovação, em junho de 2006, do novo Estatuto de Autonomia da Catalunha.



O movimento catalão para a conquista da independência e a conversão para um Estado republicano, que agora motiva uma enorme mobilização política de caráter maioritariamente identitário, não é novo, e seria importante que essa conjuntura fosse explorada de modo a explicar a forma como este tipo de iniciativas nacionalistas emergiram na sociedade civil. O próprio contexto institucional e político em Espanha sofreu várias alterações nos últimos anos e o contexto de crise económica reforçou o debate sobre a necessidade de introduzir políticas de recentralização para a eficiência económica. A possibilidade de independência ganhou visibilidade no debate político, não apenas ao nível parlamentar e partidário, mas também por uma crescente mobilização social que, em parte, também fora motivada pela perceção de um tratamento injusto pelo Estado em termos políticos e fiscais, como se a independência pudesse trazer um potencial estado de bem-estar que a crise económica lhes limitara.

Quando Puigdemont declarou a independência unilateral afirmando que “o povo determinou que a Catalunha se deve tornar um Estado dependente” criou um novo paradigma que se poderá tornar numa espécie de quadro radioativo para a Catalunha, para a Espanha e para a própria Europa. Primeiro, pelo desejo de independência de uma região com a sua própria língua e identidade; Segundo, pela incapacidade de resposta do governo central às exigências de uma sociedade em mudança e, ainda, pelos precedentes que poderá criar em outros Estados. A forma como os cidadãos se envolveram neste processo fez com que os líderes políticos e os meios de comunicação se voltassem para um panorama nunca antes explorado e, nessa linha, os próprios meios de comunicação poderão desempenhar um papel determinante na formação da opinião pública.

Se nos países autoritários, privados de liberdade, a sua função consiste em legitimar o poder estabelecido, sob o controlo de um governo que impede a emergência na esfera pública da sociedade civil, nos países democráticos, o processo é exatamente o oposto. E, nesse sentido, será interessante analisar, no futuro, as perceções que a opinião pública retirará daí: se a defesa do novo herói catalão ou a crítica ao seu antagónico.

Por: Raquel dos Santos Fernandes*.

(* A redação do artigo de opinião é única e exclusivamente da responsabilidade do/a autor/a)

O arquétipo da corrupção

Setembro 3, 2017 em Atualidade, Concelho, Mundo, Opinião, Política port barcelosnahorabarcelosnahora
Raquel dos Santos Fernandes

Um país inundado em petróleo e diamantes, onde as rendas na capital podem rondar os 11.000€/mês e onde o governo gasta, em média, 45.000.000€/ano em carros de luxo. Um país de grandes e pomposos investimentos hospitalares, no qual 50% da população não tem acesso a cuidados de saúde básicos. Um número desmedido de aldeias sem escolas, sem água potável… Um país rico o suficiente para, durante anos, atufar Luanda de edifícios analógicos à figura do poder político que a ela se impõe. O país onde uma em cada seis crianças morre antes de completar 5 anos. O maior cemitério infantil do mundo!



Às contas da jovem República de Angola somam-se agora 3 Presidentes e uma Guerra Civil que se arrastou durante 27 anos, protagonizada pelo MPLA e pelo UNITA, que se haviam erguido a partir do objetivo comum de acabar com a ocupação militar portuguesa. Se, até 1991, a Guerra Civil angolana serviu de campo de batalha aos principais intervenientes da Guerra Fria, nos anos que se seguiram pouco se poderá acrescentar àquilo que Angola viveu se não uma luta pelo poder. Pelo poder político, pelo poder militar e pelo poder económico. O MPLA tornou-se no único beneficiário da autoridade definida ainda durante o conflito armado e essa confusão entre partido e Estado ainda persiste. Num país onde quem controla o aparelho do Estado controla as eleições e perante uma oposição pouco eficiente do ponto de vista organizacional, que ainda não é capaz de apagar o sentimento de inimizade criado no passado, outro desfecho que não o de 23 de agosto sempre foi tido como improvável.

José Eduardo dos Santos presidiu a República Angolana durante 38 anos. Deixa agora a presidência mas mantém-se à frente do MPLA, o que lhe permite controlar a estrutura política do país, ao mesmo tempo que mantém todos os privilégios presidenciais. Deixa uma pequena elite governativa que enriqueceu às costas da corrupção e uma governação recheada de nepotismo e clientelismo, que impossibilitou os angolanos comuns de beneficiar da riqueza dos recursos naturais do país. Agora, que o Império comercial imergiu na maior crise económica desde os tempos da Guerra Civil, deixa na memória os sucessivos cortes que visaram os serviços públicos e a certeza que, 38 anos depois, as oportunidades e o início de uma nova vida ainda não chegaram.

Estaríamos a entrar por caminhos muito vagos, perigosos até, se afirmássemos que a Angola de João Lourenço será diferente da de José Eduardo dos Santos, pois desconhecemos uma Angola que não aquela onde o sucesso dos negócios depende das relações entre as empresas e o governo e onde existe um claro favorecimento na distribuição de subsídios e incentivos fiscais. Desconhecemos uma Angola onde os meios de comunicação não são controlados pelo MPLA e onde as manifestações não são usadas para calar os críticos do governo. Se João Lourenço prometeu uma maior transparência e a redução do controlo do Estado sobre a economia do país, a redução da pobreza e da taxa de mortalidade infantil, o que podemos afirmar é que aqui estamos, à espera que as palavras passem a ações e que o novo Presidente seja corajoso o suficiente para romper com este arquétipo da corrupção.

Por: Raquel dos Santos Fernandes*.

(* A redação do artigo de opinião é única e exclusivamente da responsabilidade do/a autor/a)

Deslocados da humanidade

Junho 25, 2017 em Atualidade, Concelho, Cultura, Educação, Mundo, Opinião, Política port barcelosnahorabarcelosnahora
Raquel dos Santos Fernandes

Desde 2014, no Iraque, aconteceram 38 ataques a escolas e 59 ataques a hospitais. 1075 crianças foram mortas, 1130 foram mutiladas e feridas e mais de 3 milhões não frequentam a escola regularmente. Mais de 5 milhões de crianças necessitam de assistência humanitária urgente!

No mês que em Portugal se assinala o Dia da Criança, a Unicef emitiu um relatório intitulado “Nowhere to go” (“Sem ter para onde ir”), sobre as crianças no Iraque presas em ciclos de violência e pobreza, numa altura em que o conflito atinge níveis sem precedentes. Só nos últimos 3 anos, esta guerra deslocou 3 milhões de pessoas (metade das quais são crianças). As Nações Unidas, dias antes, divulgava que, à escala mundial, o número de crianças a trabalhar atingia quase os 170 milhões: 98 milhões na agricultura; 54 milhões no setor dos serviços e 12 milhões na indústria. A ONG Plan International revela que 10 milhões de crianças trabalham no serviço doméstico em condições de escravidão (aquela prática social em que um indivíduo assume direitos de propriedade sobre outro e que, até na Mauritânia, já foi abolida há mais de 30 anos), escondidas nas casas de luxo dos seus empregadores/exploradores.




Diz-se que a educação é a melhor solução para o fim do trabalho infantil. Concordo! Quem poderia não concordar? Mas não precisaremos nós também de ser reeducados? Nós, sociedade civil, que há muito o sabemos e o ignoramos? Nós, meios de comunicação, que por não estar presente o fator de proximidade não o consideramos relevante para noticiarmos? Nós, classe política, que em 2003 invadimos o Iraque para, usando as palavras de Tony Blair, “libertarmos o povo iraquiano” e que agora permanecemos impotentes?

Dizia ainda, em 2002, Tony Blair a George W. Bush: “Estarei contigo, haja o que houver”.

E agora? Quem está com elas?

Por: Raquel dos Santos Fernandes*.

(* A redação do artigo de opinião é única e exclusivamente da responsabilidade do/a autor/a)

Democracia dissimulada

Maio 28, 2017 em Atualidade, Concelho, Mundo, Opinião, Política port barcelosnahorabarcelosnahora
Raquel dos Santos Fernandes
Raquel dos Santos Fernandes

Há muito que a minha posição sobre a rota autoritária que a Turquia tem vindo a seguir não é novidade. E, nesse sentido, voltei a pautar essa opinião no III Congresso do Observare na UAL. Face à minha interpretação do afastamento dos valores democráticos que se vive na Turquia, colocaram-me a questão: “Mas o que é a democracia? Vocês, ocidentais, partem do princípio que os vossos valores são sinónimo de democracia… Mas Erdogan não foi eleito? Então, como poderá o seu regime afastar-se dos valores democráticos?”

Pois bem, o Estado Novo, apesar de ser uma ditadura, consagrou, na Constituição, a realização de eleições…porquê? Porque apenas o voto popular lhe poderia fornecer a legitimidade que necessitava. Nas eleições alemãs de 1930, o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães não alcançou 107 assentos parlamentares do Reichstag? E Nicolás Maduro, eleito em 2013 Presidente da Venezuela, não possui um programa televisivo semanal que mais parece uma publicidade institucional? E não suspendeu o diálogo com a oposição durante cerca de um ano?




Na Turquia, a barreira eleitoral para a garantia de assento parlamentar corresponde a 10% dos votos populares. Todos os votos atribuídos aos partidos que não alcancem a barreira eleitoral revertem, automaticamente, para o partido mais votado, provocando um elevado distanciamento da representação parlamentar. Tomando como exemplo a primeira vitória eleitoral do Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP) no país, em 2002, 45,3% da população votante do país ficava sem representação. E, consequentemente, o partido alcançava uma maioria absoluta que lhe possibilitava uma importante estabilidade governativa e a possibilidade de alterar o teor do dispositivo constitucional.

Os ideais de Erdogan sempre tiveram uma enorme probabilidade de singrar. No período que se seguiu ao colapso do Império Otomano, Ataturk declarou que o Estado e a educação deveriam ser conduzidos pelo secularismo, uma demanda continuada pelos sucessivos governos republicanos do país que não foram capazes de cultivar um ambiente social saudável, tornando o secularismo sinónimo de proibição religiosa e antevendo uma reação inevitável. Erdogan cresceu no auge das atitudes reacionárias ao secularismo turco, frequentou uma escola religiosa e foi discípulo do único Primeiro-Ministro turco que defendeu, assumidamente, um Estado islâmico. Isso proporcionou-lhe uma base de apoio muito leal, constituída pelas massas religiosas e rurais do país que possuem uma interpretação positiva e otimista dos seus discursos e do seu desempenho político. Simultaneamente, ao associar-se ao legado liberal de importantes políticos turcos como Adnan Menderes e Turgut Ozal, conseguiu reunir o apoio de importantes empresários do país e de jovens liberais que não se reviam na esquerda socialista, e dos nacionalistas, graças à postura adotada sobre o Curdistão e o PKK. Estas alianças proporcionaram-lhe as condições necessárias para consolidar o seu poder e conduzir a Turquia por uma rota cada vez mais conservadora e pouco consoante com os valores democráticos.

Esta será, de resto, a minha interpretação dos caminhos autoritários que muitos Estados seguiram, e continuam a seguir, acantoados pelo voto popular. Mas a liberdade, a participação e o pluralismo, não são valores ocidentais, nem tão pouco meus…são valores universais, consagrados pela Carta Universal dos Direitos do Homem, viva ele em que parte do mundo for!

Por: Raquel dos Santos Fernandes*.

(* A redação do artigo de opinião é única e exclusivamente da responsabilidade do/a autor/a)

As decisões de abril

Abril 30, 2017 em Atualidade, Mundo, Opinião, Política port barcelosnahorabarcelosnahora
raquelsfernandes
Raquel dos Santos Fernandes

Face aos recentes acontecimentos na arena política internacional no mês de abril, este artigo destacará dois assuntos distintos, porém, com importantes repercussões para nós, cidadãos portugueses, europeus e civilizados, face às implicações que poderão advir para o projeto europeu tal como o conhecemos e, acima de tudo, pelo que possa significar para nós enquanto sociedade globalizada, laica e democrática.

“Esta é a primeira vez na História da Turquia que o povo turco aprova mudanças constitucionais tão importantes. No passado, era o parlamento que decidia aprovar ou não alterações constitucionais mas hoje, pela primeira vez, a vontade do povo foi manifestada.” Foi assim que Recep Tayyip Erdogan reagiu, ao cair da noite do dia 16, assim que foi noticiada a vitória no referendo para alterar a Constituição. O “sim” alcançou 51% dos votos, perdeu em Istambul, em Ancara e em Izmir, as principais cidades turcas. Pedia-se aos turcos para aprovarem ou rejeitarem “um novo projeto de constituição” que agora representa a ausência de controlos sobre o poder de Erdogan e que, a partir de 2019, será, simultaneamente, chefe de Estado e chefe de Governo, detendo ainda total poder sobre os tribunais. No poder há 14 anos, Erdogan poderá por lá continuar até 2029. As perspetivas do país aderir ao bloco europeu são, neste momento, remotas, após os eventos mais recentes que vieram azedar as relações. O Conselho da Europa afirma que “o espaço de debate democrático diminuiu após o levantamento militar” do ano passado e os deputados europeus apelam à suspensão das conversações para a adesão.

O atual Presidente turco chegou ao poder prometendo a liberalização económica e política. No entanto, consolidou o poder pessoal, purgou os rivais e suprimiu a dissidência. O homem forte do Médio Oriente habilmente mobilizou o eleitorado da periferia em prol de um interesse comum, sob uma doutrina demagoga em torno da estabilidade do país. E o povo, democraticamente, abriu-lhe caminho para um futuro que de democrático nada tem. Na história centenária da Turquia republicana, Erdogan foi o político que mais procurou fazer com que a periferia começasse a desempenhar um papel importante na economia e na política do país e, essa mesma periferia, pouco educada e bastante afeta à religião, retribui-lhe, considerando que o Ocidente não é o caminho e que um Estado secular não é o futuro.

Por fim, não poderia deixar de abordar as eleições presidenciais francesas, que depois de uma primeira volta disputada por 11 candidatos, se disputarão agora por Marine Le Pen e Emmanuel Macron. Para os europeus, que ainda se debatem com os efeitos do Brexit, o que advir desse resultado poderá ter consequências ainda mais relevantes do que no caso do Reino Unido. No país da igualdade, da liberdade e da fraternidade, Marine Le Pen optou pelo mote de campanha “França para os Franceses” para a primeira volta e “Escolher a França” para a segunda (este obviamente menos xenófobo) e colocou em cima da mesa a rejeição dos tratados comerciais internacionais e a impossibilidade de legalização aos migrantes em situação ilegal. Porém, após uma campanha “fraquinha” e vazia de conteúdo, dificilmente Le Pen chegará ao Eliseu. Macron poderá não ser o mais-querido, mas Le Pen é, certamente, a mais abominada. E, talvez por isso, Macron tenha adotado agora o mote “Juntos, França!”, numa derradeira estratégia de apelo ao voto útil.

Por: Raquel dos Santos Fernandes*.

(* A redação do artigo de opinião é única e exclusivamente da responsabilidade do/a autor/a)

Uma questão de estilo e de falta de respeito

Março 26, 2017 em Atualidade, Mundo, Opinião, Política port barcelosnahorabarcelosnahora
raquelsfernandes
Raquel dos Santos Fernandes

Fiquei bastante descansada quando a porta-voz do Ministro das Finanças alemão afirmou que o Sr. Ministro Schauble “apreciava muito” o trabalho de Dijsselbloem e que o governo alemão apoiava o Sr. Presidente do Eurogrupo. Fiquei ainda mais descansada quando Dijsselbloem explicou que o seu “estilo é direito” e que o seu comentário “pode ser explicado com a cultura de rigor holandesa”.

Ora, com esta justificação, fica também explicado o porquê do estilo “direto” apenas visar a crise económica dos países do sul. E, por isso, fiquei descansada… porque o Sr. Dijsselbloem, que se havia esquecido da “cultura de rigor holandesa” quando introduziu no seu currículo um Mestrado em “Economia Empresarial”, pela irlandesa University College Cork, não só recuperou o “rigor”, como se lembrou que os irlandeses eram uns amigalhaços porque só revelaram a inexistência de tal mestrado um ano após a sua eleição para a Presidência do Eurogrupo.

Dijsselbloem sabe que tem os dias contados à frente do Eurogrupo e sabe também que Mark Rutte e o seu partido dificilmente contarão com os sociais-democratas para formar governo. Por isso, procurou um pouco de publicidade barata e, ao mesmo tempo, procurou embelezar o sorriso de Schauble. Porém, talvez não tenha previsto que o seu discurso viesse a alimentar a indignação dos mais suscetíveis ao populismo e à oratória nacionalista, o que poderá desfear o sorriso dos patronos germânicos.

Após as declarações de Friederike von Tiesenhausen, porta-voz do Ministério das Finanças alemão, de que as palavras de Dijsselbloem haviam sido pronunciadas num contexto totalmente diferente do noticiado, procurei a entrevista original publicada no “Frankfurter Allgemeine Zeitung” e o que verifiquei foi uma clara alusão aos nórdicos ao estilo dos heróis românticos de Garrett (Conhece Garrett, Dijsselbloem? Adorava mulheres, bem ao estilo sulista). O que não verifiquei foi qualquer tipo de manifestação de respeito aos povos de sul, os anti-heróis desta narrativa.

Entristece-me que ainda se verifique esta espécie de apartheid social europeu! Não lhe peço que forre barrigas famintas, mas exijo-lhe respeito. E isso, caro Dijsselbloem, não li no seu discurso. E, por isso, afinal, não estou descansada… Estou indignada porque, como diz um ditado bem cá do sul da Europa, “quem não se sente, não é filho de boa gente”!

Por: Raquel dos Santos Fernandes*.

(* A redação do artigo de opinião é única e exclusivamente da responsabilidade do/a autor/a)




Maastricht está de parabéns. E nós?

Fevereiro 26, 2017 em Atualidade, Mundo, Opinião, Política port barcelosnahorabarcelosnahora
raquelsfernandes
Raquel dos Santos Fernandes

Entre as margens do rio Mosa, cravada entre a Alemanha e a Bélgica, Maastricht, uma das mais antigas cidades holandesas, foi palco da assinatura do Tratado que adotou o seu nome, a 7 de fevereiro de 1992. Na semana* em que se comemora os seus 25 anos, a União Europeia vive agora na realidade do eurocentrismo, dos fluxos migratórios e das divisões internas na sinuosidade do bloco europeu.

Comunidades Europeias, Política Externa e de Segurança Comum (PESC) e Cooperação nos domínios da Justiça e dos Assuntos Internos conduziram a União a uma nova etapa na integração europeia, agora com uma clara dimensão política, com o objetivo de reforçar a legitimidade democrática e a eficácia das instituições, desenvolvendo a vertente social da Comunidade e instaurando uma União Económica e Monetária. Ora, o apoio ao projeto europeu – criação de um mercado único e a confiança dos europeus de que juntos somos mais fortes – entra em declínio com a crise da zona euro. Apesar do fundamento de que a integração seria benéfica para todas as nações participantes, os europeus começaram a duvidar dessa suposição, alicerçados com a vitória de Trump do outro lado do Atlântico, que visivelmente se revelou num impulso às forças populistas que convelem os principais políticos da Europa e, acima de tudo, o projeto europeu. O facto do novo Presidente dos Estados Unidos da América ser um apoiante assumido do Brexit só reforça o argumento eurocético de que a União Europeia seguiu uma direção errada.

A corporalização de um certo desprezo pela democracia nacional e supranacional – e seria importante que os apoiantes do Brexit, que agora culpam Merkel e Hollande, refletissem sobre aquela que foi a postura de Tony Blair na Europa – não estará isenta de culpas na deriva ultranacionalista da Polónia e da Hungria. E depois a humilhação económica e social da Grécia, a incapacidade de implementar cotas de refugiados equitativas, o papel hegemónico de um Estado-Membro sobre os demais Estados, o fracasso em distinguir e unificar a Europa e a falta de vontade em restabelecer um modelo social europeu. A ideia de Estado-nação também desafia a ambição do projeto europeu, daí a importância de construir um ambiente político pós-nacional e não agressivo. A concessão de poderes especiais a alguns Estados-Membros, a promoção de uma integração não harmoniosa em detrimento de “fatores alternativos”, a aprovação de uma maioria de parlamentos nacionais para bloquear a legislação da União Europeia significam, essencialmente, legitimar os nacionalismos locais e o crescimento, cada vez mais, de uma retórica eurocética.

Se as ambições pós-nacionalistas não são uma opção para a realpolitik dos nossos tempos e se continuamos a querer promover a democracia e os direitos humanos, a paz, a prosperidade, a solidariedade e a harmonia, não esqueçamos que, aos olhos do projeto europeu, que também é nosso, as várias culturas e línguas que nos unem continuam a ser uma mais-valia para o velho Continente, in varietate concordia.

*ndr: este artigo foi entregue na semana de 07 de fevereiro de 2017

Por: Raquel dos Santos Fernandes.

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