Um pouco daquilo que nos sobra

Dezembro 22, 2019 Atualidade, Concelho, Cultura, Mundo, Opinião

A ideia de que a filantropia é um hobby circunscrito à população mais abastada é facilmente distorcida pelo princípio de que quanto maiores forem os recursos, maior será o seu impacto na sociedade quando aplicados a fins solidários.



Trata-se de uma distorção lógica, pois são tantos e tão graves os problemas que afetam a sociedade – questões de saúde física e mental, a preservação do meio-ambiente, do património cultural, o bem-estar dos animais, o combate à pobreza, a inclusão social, a literacia, os problemas na infância e na idade avançada, entre muitos outros -, que todos os recursos parecem insuficientes para os combater. A existência de organizações como o Lions Clube só confirma a necessidade de intervenção concertada por parte de grupos de cidadãos sensíveis às carências de outros.  

Ninguém discorda que o dinheiro é fundamental para colmatar carências, nivelar desequilíbrios e compensar injustiças. A sua importância é tal que, quando o cheque é abundante, traz não só notoriedade pública à causa a que se destina como também ao emissor. Contudo, para além do apoio financeiro a causas humanitárias, como a erradicação da cegueira e o combate ao diabetes, o Lions Club reconhece igualmente a importância dos gestos privados, realizados no decorrer do dia a dia e em prol do bem-estar dos outros, incluindo aqueles que não conhecemos e cujos problemas nos são menos familiares. Já estes, pouco ou nada têm a ver com dinheiro.

Todos temos ao nosso alcance algo que poderá surtir um efeito transformador na vida de alguém, sobretudo algo que, se dermos aos outros, não nos faltará. Quem trabalha em serviços públicos pode ter um papel facilitador na resolução de um problema de um utente em dificuldades ou carenciado. Um patrão poderá aperceber-se de um funcionário com uma situação familiar complicada e flexibilizar-lhe o horário, por exemplo. Qualquer um de nós pode intervir na defesa de uma vítima de violência doméstica, denunciando a situação às autoridades e sinalizando ao agressor que a vítima não é indiferente à comunidade onde se insere. Qualquer um de nós pode, inclusivamente, oferecer algum do seu tempo a um Banco de Voluntariado, uma forma de cidadania ativa cada vez mais valorizada até pelo mercado de trabalho.

No Lions Clube consideramos que a condição essencial da filantropia é a empatia: sentirmos as dores do outro, mesmo que diferentes das nossas, cientes de que a dor é comum a todos. Mais ainda: oferecer o nosso tempo e o nosso saber em benefício do próximo não pressupõe qualquer sacrifício por parte de quem dá, pois, na sua essência, a filantropia consiste em transferir a quem precisa um pouco daquilo que nos sobra.

Por: CL Casimiro Rodrigues*.

(* A redação do artigo de opinião é única e exclusivamente da responsabilidade do autor)

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