Uma questão de estilo e de falta de respeito

Março 26, 2017 Atualidade, Mundo, Opinião, Política
raquelsfernandes
Raquel dos Santos Fernandes

Fiquei bastante descansada quando a porta-voz do Ministro das Finanças alemão afirmou que o Sr. Ministro Schauble “apreciava muito” o trabalho de Dijsselbloem e que o governo alemão apoiava o Sr. Presidente do Eurogrupo. Fiquei ainda mais descansada quando Dijsselbloem explicou que o seu “estilo é direito” e que o seu comentário “pode ser explicado com a cultura de rigor holandesa”.

Ora, com esta justificação, fica também explicado o porquê do estilo “direto” apenas visar a crise económica dos países do sul. E, por isso, fiquei descansada… porque o Sr. Dijsselbloem, que se havia esquecido da “cultura de rigor holandesa” quando introduziu no seu currículo um Mestrado em “Economia Empresarial”, pela irlandesa University College Cork, não só recuperou o “rigor”, como se lembrou que os irlandeses eram uns amigalhaços porque só revelaram a inexistência de tal mestrado um ano após a sua eleição para a Presidência do Eurogrupo.

Dijsselbloem sabe que tem os dias contados à frente do Eurogrupo e sabe também que Mark Rutte e o seu partido dificilmente contarão com os sociais-democratas para formar governo. Por isso, procurou um pouco de publicidade barata e, ao mesmo tempo, procurou embelezar o sorriso de Schauble. Porém, talvez não tenha previsto que o seu discurso viesse a alimentar a indignação dos mais suscetíveis ao populismo e à oratória nacionalista, o que poderá desfear o sorriso dos patronos germânicos.

Após as declarações de Friederike von Tiesenhausen, porta-voz do Ministério das Finanças alemão, de que as palavras de Dijsselbloem haviam sido pronunciadas num contexto totalmente diferente do noticiado, procurei a entrevista original publicada no “Frankfurter Allgemeine Zeitung” e o que verifiquei foi uma clara alusão aos nórdicos ao estilo dos heróis românticos de Garrett (Conhece Garrett, Dijsselbloem? Adorava mulheres, bem ao estilo sulista). O que não verifiquei foi qualquer tipo de manifestação de respeito aos povos de sul, os anti-heróis desta narrativa.

Entristece-me que ainda se verifique esta espécie de apartheid social europeu! Não lhe peço que forre barrigas famintas, mas exijo-lhe respeito. E isso, caro Dijsselbloem, não li no seu discurso. E, por isso, afinal, não estou descansada… Estou indignada porque, como diz um ditado bem cá do sul da Europa, “quem não se sente, não é filho de boa gente”!

Por: Raquel dos Santos Fernandes*.

(* A redação do artigo de opinião é única e exclusivamente da responsabilidade do/a autor/a)




Deixe uma resposta

Your email address will not be published.

*

Últimas de

Ir Para Cima