0,25% para a Cultura, 99,75% para a vergonha!

Outubro 15, 2021 Atualidade, Concelho, Economia, Opinião
Luís Rosa

Escrevo este artigo numa semana em que se discute um orçamento de estado que injetará, como é habitual, uns quantos milhões de euros numa companhia aérea falida, o engordamento da função pública quando devíamos transitar/caminhar para uma função mais digitalizada ou uma putativa crise política. Se por um lado, Rui Rio tenta ter mais vidas que um gato e ganhar credibilidade junto do seu partido, o Partido Socialista vê-se de mãos atadas com um possível chumbo do orçamento de estado sem que consiga margem negocial com os seus ex-parceiros da esquerda (Bloco de Esquerda e Partido Comunista Português). Como é hábito em Portugal, os ruídos das incertezas políticas imperam sempre e, alavancados por uma comunicação social que vive dos temas da espuma dos dias, tendem a silenciar diversos setores da sociedade. Assim sendo, na hora de dividir o bolo financeiro que ronda mais ou menos os 90 mil milhões de euros anuais a Cultura teima em ser regalada para segundo plano.

Se há algo que a pandemia nos mostrou é que somos definitivamente a espécie mais frágil do planeta, por outro lado, a que melhor sabe reinventar a roda. Tal como para muitos portugueses, confesso que os confinamentos foram muitos difíceis para mim. No entanto, tornaram-se tempos menos penosos e angustiantes pois nunca deixei de ter acesso à Cultura, desde os diretos do Bruno Nogueira no Instagram, a série portuguesa “A Herdade”, na RTP, passando pela formação de um grupo de apoio online chamado “Barcelos em Casa” (com a contribuição de vários artistas barcelenses) até à criação de um podcast “Dois dedos de conversa” [link: https://linktr.ee/blogalgumasideiassoltasponto] em que tive a oportunidade de falar com diversos agentes culturais. Foram vários os momentos em que a Cultura foi a minha “liberdade” e a única vacina contra tudo o que se passava lá fora.

Por estes dias soubemos que a Cultura representará 0,25% da despesa consolidada da Administração Central. Sejamos honestos intelectualmente, tanto a esquerda como a direita moderada nunca tiveram um projeto cultural a nível nacional. A discussão é antiga e é a iniciativa privada, no fim de tudo, é que se chega à frente para a produção e exibição de obras teatrais e cinematográficas. O problema começa quando o estado se aliena da sua responsabilidade pela área da Cultura. Na minha opinião, a Cultura não é o meio, mas sim o fim, alicerçada por um pilar essencial: a Educação. Imaginam o estado alienar-se da Educação em prol da salvação de uma TAP ou na contratação de mais funcionários públicos que são nada mais nada menos que sinónimo de burocracia? Se hipoteticamente acontecesse, imaginam como era a sociedade portuguesa? Além disso, se é inquestionável uma criança, jovem ou adulto ter acesso à Educação, por que razão dispensamos a Cultura? Não menos inquietante, se o orçamento de 7,8 mil milhões para a Educação — uma subida de 8,5% — com políticas para recuperar o tempo perdido com a Covid é tão louvável, como se justifica a ninharia alocada para a Cultura? Ela não teve um papel relevante na saúde mental das pessoas durante a pandemia?

Todos sabemos que tão cedo não vamos ter respostas. Algumas irão, como sempre, cair no esquecimento pelos agentes políticos. Pois não há tempo, o tempo é para a disputa do poder. Não há dinheiro, o dinheiro é para se gastar em empresas falidas e burocratizar a vida dos portugueses. Não há vontade, a vontade foi substituída pela ignorância. Não há mais do que 0,25% para a Cultura, pois o resto é para a vergonha.

Por: Luís Rosa

Foto:@mathieustern

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