A pão e água ou morrer à fome

Dezembro 4, 2020 Atualidade, Economia, Mundo, Opinião, Política
Diogo Dias Reis

Por estes dias, temos assistido a um espetáculo deprimente que nos chega pelos órgãos de comunicação social. Um movimento constituído por cidadãos, empresários, do nosso país, depois de terem convocado vários eventos em diversos locais de Portugal, resolveram entrar em greve de fome e acampar à porta da Assembleia da República.



Não obstante de quem possa ter razão, é meu entender que num momento excecional como o que estamos a viver, de pandemia mundial, com prejuízos socioeconómicos devastadores como não há memória, deva este movimento ser ouvido pelas entidades governamentais.

O jogo do empurra que temos assistido nos últimos dias é dispensável. Atravessamos uma crise de saúde pública, com uma pandemia a nível mundial que todos os dias aumenta, que vitima muitos dos nossos entes queridos. Que desde março, em Portugal, nos impede de viver com toda a legitimidade de liberdade que nos é devida, que nos impede de estar com a família, com os nossos amigos, de festejar aniversários, celebrar a nossa fé, marcar presença em eventos públicos, é, pois, por tudo isto, que entendo ser um gesto de humanidade, solidariedade e fraternidade que estes possam, e devam, ser chamados a audiência com as mais altas patentes da governação em Portugal.

A decisão de serem praticamente ignorados pelo Primeiro-ministro, António Costa, bem como pelo Ministro da Economia, Pedro Siza Vieira, não é, de todo, inocente e visa criar um sentimento de julgamento e de condenação na sociedade portuguesa. Criar uma espécie de cisão de “nós contra eles” e, assim, ao olhar dos portugueses, enfraquecer este movimento e, por conseguinte, os empresários que o compõem. O que seria, de todo, evitável num momento tão difícil como o que estamos a viver.

Se é verdade que, no passado, todos eles foram pró-ativos em encerrar os seus estabelecimentos, ainda antes das obrigatoriedades impostas pelo governo, não é menos verdade que foi isso, a par das medidas adotadas de forma quase generalizada pela população portuguesa, que evitou a sobrelotação do SNS (Serviço Nacional de Saúde) e, por isso, quase que se falava no “milagre” português.

Importa relembrar que este movimento, embora tenha como um dos rostos mais mediáticos, o Chef Ljubomir Stanisic, é composto por mais elementos. Alguns deles, empresários da noite, bares e discotecas, que estão impedidos, por lei, de abrir os seus estabelecimentos para a finalidade a que se destinam. Se no período após o Estado de Emergência, no vulgo desconfinamento, o setor da restauração pôde abrir a lotação reduzida e até às 23 horas e, mais tarde, até às 01 horas, o setor da noite não podia fazê-lo. Ainda assim, é de salutar e de agradecer a forma ágil e célere como muitos destes estabelecimentos se readaptaram por forma a servir refeições quando a sua finalidade é servir de palco às mais loucas noites do nosso país.

Não posso terminar, sem deixar, ainda, um último apontamento, e este refere-se aos apoios que o Estado diz que deu ou que vai dar a estes e outros setores. Sabemos que este governo é perentório em fazer anúncios. Sabemos, porque estamos desde março a ouvir falar da “bazuca” da União Europeia, das ajudas aos pequenos e médios empresários e do famoso lay-off. Convém também relembrar que uma parte do lay-off é assegurada por estes empresários, já para não falar de que, para terem acesso aos apoios do Estado, têm que assegurar, na sua totalidade, os postos de trabalho. Apoios estes, que, na sua maioria, ainda não chegaram ao bolso destes empresários.

É verdade que o Estado tem uma máquina burocrática muito pesada. Mas também é verdade que não há vontade de agilizar processos. Se fosse para favorecer algum amigo, sabemos bem que se aplicaria um ajuste-direto e estaria resolvido. Devemos todos ter na memória o famoso caso das golas antifumo.

Assim, temos uma crise de saúde pública, a maior crise económica e social e um estado que parece preferir que do movimento “a pão e água” passe ao movimento “morrer à fome”. O que não seria se esta greve de fome se passasse em 2012 com o Governo de Pedro Passos Coelho, de elitista a xenófobo, não faltaria o que lhe chamassem.

Num momento de crispação da sociedade portuguesa, de cansaço generalizado, a iniciar-se a época de maior harmonia para nós, católicos, mas também para a sociedade civil, reunir com este movimento é, antes de tudo, um gesto de humanismo.

Por: Diogo Dias Reis* (Vogal da Direção Política Nacional do Partido RIR – Reagir Incluir Reciclar).

Foto: Frame de vídeo (SIC NOTÍCIAS).

(* A redação do artigo de opinião é única e exclusivamente da responsabilidade do autor)

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1 Comment

  1. Estamos TODOS MAL!
    Governados e Governantes!
    O artigo é nitidamente partidário. O momento não é de partidarismo nem clubismo. O momento é de estarmos unidos. Acaso o autor do texto tem solução que dê resposta satisfatória. Se fosse governo, como faria? Agora, que não é, dá empurrão ao deita abaixo! Se a “bazuca” ainda não chegou, como quer que já seja distribuída? E fale-me de impostos! Os “empresários da noite” pagaram os seus impostos direitinhos ao Estado, enquanto faturaram bem, ou fugiram a bom fugir…com o que entrava na caixa sem “ruído”.
    Lamento sinceramente o mal, muito mal, pelo qual estão a passar os muitos colaboradores de empresários que fecharam suas portas. Lamento do mesmo modo os pequenos empresários e grupos familiares que viviam do dia a dia de seus pequenos negócios!
    Ainda há muita gente neste país em crise, que continua ” sem crise” alguma, pois explorou os seus colaboradores, pagando-lhe mal e clandestinamente, não os tendo nos descontos da SS e agora assobiam pró lado…
    É que nem o Covid19 os assusta! Mas devia assustar! Os cemitérios estão todos cheios de ” pobres”!

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