Artistas em tempos de Pandemia

Agosto 1, 2021 Atualidade, Concelho, Opinião
Cláudia Martins

Cláudia Martins, natural de Guimarães, é uma referência no mundo da música tradicional e sobretudo nos Cantares ao Desafio. Canta desde os 8 anos e tem mais de 250.000 seguidores nas redes sociais. Com dezenas de álbuns editados, 2 discos de ouro, mais de mil concertos em Portugal e além-fronteiras, passando por Estados Unidos da América, as comunidades portuguesas na Europa, Brasil, Canadá, Austrália… Cláudia é, indiscutivelmente, uma artista nacional e internacional.

Estamos em Agosto. Tão diferente este Agosto quando comparado aos Agostos de outros anos. Desde há muito que me habituei, sobretudo no Verão, mas também ao longo de todo o ano, a não ter tempo, os concertos absorvem-nos.

Acordar cada dia numa localidade diferente, por vezes num país diferente. Contactar com diferentes culturas, diferentes localidades. Os rostos das pessoas, esses são aos milhares. Os banhos de multidão. A adrenalina dos concertos, os milhares de quilómetros percorridos. As festas, a animação. Os sorrisos, as diversões, a festa popular em toda a sua plenitude. As pequenas aldeias e as grandes cidades. Tenho saudades disso. Tenho eu e temos todos. Aquilo que me traz até vós é precisamente o intuito de partilhar convosco a vida de um artista em tempos de Pandemia.

Eu, e todos os artistas, tivemos que nos reinventar. Há quem tenha optado por mudar de carreira profissional, outros adaptaram-se. Partilhando convosco a minha experiência nesta fase, posso dizer-vos que é extremamente complicado lidar com esta mudança. Mas sempre me habituei a ver o copo meio cheio, e a retirar aquilo que de positivo esta pandemia nos trouxe. E há algo que é indiscutível. O tempo. Temos mais tempo. E muitas vezes, esse tempo leva-nos a fazer uma introspeção e a realizar uma análise daquilo que é efetivamente importante. A família, os amigos. Parar nem sempre é mau. Mas isto quando a paragem é opcional e planeada. Quando esta nos é imposta, torna-se bem mais complicado. Mas voltando aos aspetos positivos. No meu caso, esta pandemia trouxe-me a possibilidade de explorar outras vertentes profissionais que há muito ambicionava. Criei uma nova imobiliária, a Imofamily, e isso tem ocupado grande parte do meu tempo. Contudo, a música não para, nem pode parar! Alimento-me dela, é efetivamente a minha vida. Na impossibilidade dos grandes palcos, dos grandes concertos, temos sempre os espetáculos televisivos, concertos em formato reduzido. Explorar a parte comercial, com campanhas de marketing e imagem, e estabelecer parcerias com algumas marcas e entidades.

Mas o grande problema nesta fase não se resume ao “artista”. Muitas vezes pensamos “coitado” deste ou daquele “artista” que não pode trabalhar. Em primeiro lugar, este problema não é apenas da indústria musical. Todos os setores de atividade económica foram afetados. Podemos, e devemos, enquanto cidadãos, questionar e avaliar a atuação de todos aqueles que têm a responsabilidade de nos governar. Apesar de fazer essa análise e de, em inúmeras situações, acreditar que a gestão pandémica por parte do governo nem sempre foi a mais correta, sou uma pessoa consciente. E faço a pergunta a mim mesma. Qual a forma correta de gerir a pandemia e todos os números com os quais, diariamente, somos confrontados?

Na realidade, todos temos opinião, mas ninguém tem uma resposta efetiva. Agir, aprender, corrigir. A situação é nova, imprevisível. O importante para mim, será a consciência individual. Cada um é responsável por si, e todos somos responsáveis por todos. Só com atitudes individuais, poderemos obter bons resultados coletivos. Voltando ao impacto económico do covid-19 nos vários setores económicos.

O turismo e a restauração. Sendo eu licenciada precisamente em turismo, é com grande tristeza que vejo o terrível impacto que tudo isto traz ao nosso país, e a todo o mundo. O turismo faz-se da circulação de pessoas, e quando estas se confinam, obviamente que o cenário se torna negro. Hotéis, cafés, restaurantes. Quantos já fecharam, quantos mais irão fechar? É um cenário verdadeiramente triste. No mundo empresarial. Quantas empresas fecharam por falta de encomendas? Quantas fecharam por falta de matérias primas? Quantas sentiram na pele o impacto tanto nas importações como nas exportações? Se há coisa que a pandemia nos trouxe foi precisamente a consciência de que vivemos efetivamente numa aldeia global. O “butterfly effect”, é mesmo real. Algo que acontece do outro lado do mundo, rapidamente tem um impacto brutal no nosso dia a dia.

Voltando ao mundo do espetáculo, e ao tema que me traz até vós, “os artistas em tempos de pandemia”. Como já referi, não nos podemos limitar ao artista. Por detrás do artista está toda uma equipa de produção. Os elementos dessa equipa, ou melhor, equipas de produção, viram a sua vida profissional parar. Músicos, técnicos de som, técnicos de luz, roadies, motoristas, fotógrafos, videográficos, managers. Uma catástrofe. As empresas de som, com milhares e milhares de euros em investimento, com cargas salariais elevadíssimas, como conseguem sobreviver? As empresas de produção de espetáculos?

Começamos a ver uma luz ao fundo do túnel. Mas ainda é ténue para olhar para o futuro e sorrir. Falando um pouco do meu mercado musical. Sou uma artista em que grande parte do meu trabalho se desenrola em eventos de grandes dimensões. Festas populares, arraiais. Neste momento começam a surgir alguns eventos, mas, na sua grande maioria, em espaços fechados. Aí será mais simples cumprir as regras impostas pela DGS, e realizar eventos com o necessário distanciamento social. No que respeita a eventos ao ar livre, tudo se torna mais complexo. Como pode uma comissão de festas que, muitas vezes vive de mecenas para conseguir reunir os fundos necessários para contratar as bandas, os artistas, pagar os licenciamentos, as empresas de produção, somar a tudo isto ainda mais despesa? Vedar recintos, segurança, os testes de covid. Na realidade, o custo para realizar um evento com todas as regras de segurança necessárias, é muito mais elevado do que o era em tempos pré covid. Além de tudo isto, com a limitação relativa ao número de pessoas que podem, efetivamente, assistir aos eventos culturais, o retorno financeiro é muito mais reduzido. Facilmente se percebe que, para a grande maioria dos organizadores, se torna insustentável.

Mais ainda. Uma comissão de festas trabalha um ano inteiro a realizar eventos para recolher fundos. Jantares, convívios, o peditório porta a porta. Com o país confinado, obviamente que isso não aconteceu. Por isso, naturalmente que na maioria dos casos, ainda que o covid desaparecesse por magia de um dia para o outro, isso não significaria uma retoma automática da vertente cultural, ainda para mais para os artistas populares. Será uma recuperação gradual e dolorosamente lenta.

Somemos a isto a crítica social. Habituamo-nos a ver críticas nas redes sociais a tudo o que são aglomerações de pessoas. Hoje em dia, vivemos num mundo de crítica fácil. Viver atrás de um teclado de um computador é fácil. E essa crítica, muitas vezes com desconhecimento, leva ao desânimo daqueles que procuram realizar eventos, mesmo que o façam de forma consciente e cumprindo todas as regras. Obviamente que há quem o faça de forma criminosa, e esses sim, devem ser penalizados. A parte incómoda é que, por vezes, não é fácil distinguir.

Como é então a vida de um artista em tempos de pandemia. A maioria dos artista não vive. Sobrevive. A grande preocupação é a de manter “viva” a marca. Criar condições para que, logo que haja um levantamento das medidas restritivas, os projetos estejam prontos a arrancar para a estrada. É isso que tenho procurado fazer, eu, e quem me acompanha. Concertos em Live Streaming também são uma solução. Mas mais uma vez, é algo cuja relação custo produção, rentabilidade, é penosa para quem organiza. Mas pelo menos permite a quem os realiza criar alguma dinâmica de trabalho. Permite ao artista manter algum contacto com os seus seguidores. Acredito que todos aprendemos imenso com esta situação. Um artista não se deve acomodar. Deve procurar sempre inovar, estar na linha da frente.

Ouvir o seu público, adaptar-se ao seu público. Se há coisa que aprendi nesta fase, é que não devemos, efetivamente, dar nada como adquirido. É uma lição de vida. Para todos nós. Gosto, como já referi, de ter um pensamento positivo. Por isso acredito que acabaremos por sair todos mais fortes desta situação. Mentalmente, isso é indiscutivel. Se há dois anos seria inimaginável uma situação destas, hoje começa a ser dificil imaginar uma vida normal. Mas essa virá! E quando acontecer, todos aprenderemos a valorizar as pequenas coisas que sempre demos como adquiridas. Gosto de acreditar que acabaremos por viver de forma muita mais intensa. Um abraço será sentido de forma diferente. Respirar ar puro sem máscara será um privilégio. Ver o rosto das pessoas sem barreiras. Acredito que seremos melhores e mais felizes.

Por fim, despeço-me com uma mensagem. Somos obrigados a viver com distanciamento social. Isso afasta-nos. Mas esse afastamento não nos deve afastar enquanto seres humanos. O conceito de distanciamento social não deve ser confundido com o distanciamento humano. Embora longe, poderemos estar mais perto que nunca. Quem partilha sonhos, acaba por ficar perto. E há um sonho, um desejo comum. A liberdade. Por isso talvez estejamos mais juntos que nunca. Parece um pensamento utópico, mas façam como eu, vejam o copo meio cheio.”

Mais detalhes sobre Cláudia Martins:

Cláudia Martins iniciou o seu percurso no mundo da música com apenas 8 anos, inicialmente apenas a tocar concertina, mas rapidamente se integrou na arte dos Cantares ao Desafio. Participou em alguns projetos já nesta fase. A sua primeira experiência de estúdio data do ano de 2000, onde grava uma desgarrada com Jorge Martins e Adília de Arouca. Aos 15 anos abre a sua própria escola de concertinas. Por esta altura já percorria as comunidades portuguesas levando a sua arte além-fronteiras. O projeto Minhotos Marotos, surge em 2009. Nesta fase Cláudia é já uma referência no mundo da música tradicional e sobretudo nos Cantares ao Desafio. Com dezenas de álbuns editados, 2 discos de ouro, mais de um milhar de concertos em Portugal e Além-fronteiras, passando por Estados Unidos da América, as comunidades portuguesas na Europa, Brasil, Canadá, Austrália… Cláudia é, indiscutivelmente, uma artista nacional e internacional. Rosto incontornável e constante das Tvs portuguesas. O seu projeto Minhotos Marotos, atualmente Cláudia Martins & Minhotos Marotos, conta já com mais de 10 anos de Carreira e mais de 250.000 seguidores nas redes sociais. Em 2019, Cláudia realizou um megaevento no Multiusos de Guimarães para festejar, precisamente, os 10 anos de carreira do seu projeto. Esse concerto foi registado em DVD, e lançado recentemente.

Por: Cláudia Martins

(* A redação do artigo de opinião é única e exclusivamente da responsabilidade da autora)

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