As dificuldades diárias das pessoas com mobilidade reduzida

Junho 2, 2021 Atualidade, Concelho, Opinião

Cátia Rêgo, natural de Barcelos, licenciada em engenharia eletrotécnica e computadores pelo Instituto Politécnico do Cávado e do Ave, colaboradora interna do Espaço Social Intensify World de Pedra Furada, é a convidada a escrever o artigo de opinião do mês junho. Cátia utiliza uma prótese transfemoral, depois de sofrer amputação da perna e todos os dias enfrenta dificuldades.

Estamos em pleno século XXI e as dificuldades para pessoas com mobilidade reduzida continuam a existir. Todos os dias me deparo com algum tipo de barreira, desde os problemas arquitetónicos até à notória falta de civismo da população.

Sabia que existe uma lei que tem como nome, “Regime da acessibilidade aos edifícios e estabelecimentos que recebem público, via pública e edifícios habitacionais”, Decreto-lei 163/2006 de 8 de Agosto, artigo 9º deste decreto refere que:

  • Edifícios “cujo início de construção seja anterior a 22 de Agosto de 1997, são adaptados dentro de um prazo de 10 anos.” A contar desde 2006 o que, no máximo, teriam que estar adaptados até 2016.
  • Edifícios “cujo início de construção seja posterior a 22 de Agosto de 1997, são adaptados dentro de um prazo de 5 anos.” A contar desde 2006 o que, no máximo, teriam que estar adaptados até 2011.

Isto é o que o decreto-lei menciona, mas no seu dia-a-dia, quantos edifícios frequenta que ainda não têm a sua adaptação efetuada?

Já parou para pensar, e se eu anda-se em cadeira de rodas conseguiria entrar aqui?

Quinze anos após a publicação deste decreto-lei ainda são muitos os edifícios que não realizaram qualquer adaptação para a acessibilidade de pessoas com mobilidade reduzida. As barreiras arquitetónicas são um dos grandes problemas na acessibilidade para pessoas com mobilidade reduzida, existem milhares de edifícios que recebem público e tem aquele degrauzinho na entrada, esse pequeno degrau é um grande problema para quem necessita de uma cadeira de rodas para se mover.

Falando de outro tipo de problema para pessoas com mobilidade reduzida que não utilizam cadeira de rodas é a falta de corrimão nas escadas, algumas pessoas conseguem utilizar escadas mas a falta de corrimão dificulta e muito o uso das mesmas. São pequenos detalhes que, infelizmente, só quem está nelas repara.

Agora, iremos à via pública, já reparou nos estacionamentos para pessoas com mobilidade reduzida que estão muito mal localizados?

Aquele estacionamento que não tem uma rampa para conseguir subir com a cadeira quando sai do carro, muitas vezes, as pessoas tem que ir pela estrada em direção a uma passadeira, com a esperança de encontrarem uma rampa pois, também, ainda existem passadeiras sem qualquer rampa. Mesmo em obras recentes na via pública se vê a falta dessas tais rampas. E quando a localização do estacionamento não faz qualquer sentido? Não consigo perceber como, em pleno seculo XXI, ainda não se tem em conta esses pequenos grandes pormenores.

Outro grande problema das pessoas com mobilidade reduzida é a falta de civismo da população. Existem, infelizmente, muitas pessoas que não têm qualquer empatia pelo próximo, e no que toca a pessoas com mobilidade reduzida a coisa piora. Todos os dias me deparo com pessoas que utilizam indevidamente os estacionamentos destinados a pessoas com mobilidade reduzida, e mesmo quando confrontadas dizem foi “só” 5 minutos, “só” fui ali e vim, nesses “só” muitas pessoas que realmente necessitavam desse estacionamento podem ter ido embora sem fazer o que tinham para fazer porque afinal só haviam estacionamentos a muita distância ou impossível de serem utilizados devido à deficiência em causa! Em centros comerciais parem de estacionar três carros num estacionamento para pessoas com mobilidade reduzida, se têm aquelas dimensões é porque são necessárias!

E a falta de civismo continua quando todos os dias se vê pessoas que não cedem a sua vez em filas de supermercado, padaria, talho, etc. etc. Este é um direito, que não deveríamos ter que o pedir, pedir permissão a alguém por algo que é nosso por direito, não faz sentido termos que nos rebaixar a tal, muito menos quando não sabemos o que vem do outro lado. Já ouvi muitas palavras lançadas para o vazio e até já fui diretamente insultada por uma senhora, isto porque a funcionária me chamou para passar à frente, nesse dia utilizei o meu direito, normalmente, só o uso quando alguém olha para mim e me dá a sua vez, sim porque ainda existem pessoas que, mesmo em minoria, cumprem a lei e são cívicas. Deveria ser sempre assim, todas as pessoas deveriam olhar para o próximo, serem empáticas e cívicas.

E a terceira grande dificuldade das pessoas com mobilidade reduzida é a falta de oportunidades a nível de emprego. Existe uma lei, Lei n.º 4/2019 que estabelece cotas para trabalhadores com deficiência, no artigo 5º dessa lei diz que “As médias empresas com um número igual ou superior a 75 trabalhadores devem admitir trabalhadores com deficiência, em número não inferior a 1 % do pessoal ao seu serviço.” e que “As grandes empresas devem admitir trabalhadores com deficiência, em número não inferior a 2 % do pessoal ao seu serviço.” tendo estas cinco e quatro anos para regularizarem a situação, estamos com dois anos de lei e ainda não se vê grande diferença a nível privado, espero que nos próximos dois anos a situação seja completamente diferente, e que se comece a ver pessoas com mobilidade reduzida como pessoas capazes de trabalhar e de realizar imensas atividades, e não se pense só que, a pagar e a pagar, vou pagar a quem irá fazer tudo sem limitações!

Gostaria um dia de viver num mundo onde se pense que pessoas com mobilidade reduzida/pessoas com deficiência saem de casa e têm vida própria.

Por: Cátia Rêgo

(* A redação do artigo de opinião é única e exclusivamente da responsabilidade da autora)

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