ATEP e FENPROF denunciam casos de alunos em isolamento, privados ou com grandes dificuldades para acompanharem as aulas

Novembro 4, 2020 Atualidade, Educação, Mundo, Política

Muitos alunos de escolas públicas obrigados a ficar em isolamento por motivos de COVID-19 estão privados de acompanhar as atividades letivas por falta de equipamentos e acesso à Internet. A denúncia foi feita pela ATEP – Associação Todos pela Escola Pública – e pela FENPROF – Federação Nacional dos Professores, que têm recebido várias queixas de encarregados de educação, alunos e professores.



“No Agrupamento de Escolas António Sérgio, em Vila Nova de Gaia, por exemplo, temos alunos em casa com dificuldade em acompanhar as aulas, a internet nem sempre funciona e a carência de câmaras para todos os alunos que necessitam é gritante. As sessões por videoconferência são descontinuadas e os professores perdem cerca de 20 minutos de aula a tentar retomar as ligações. No Agrupamento de Escolas Gonçalves Zarco, em Matosinhos, a inexistência de equipamentos necessários para dar resposta às videoconferências, origina o recurso aos telemóveis pessoais de professores e alunos”, denuncia Mariana Pereira, vice-presidente da ATEP.

Além disso, há a burocracia instalada nas escolas com as alterações decorrentes da COVID-19, falta de tempo para planeamento de aulas em regime presencial e online, bem como ausência de orientações claras para avaliação dos alunos que se encontram em isolamento profilático. Os docentes não acreditam ter tempo para dar a matéria toda e sentem que não dão o devido acompanhamento aos alunos. “Temos as comunidades educativas a tentarem fazer o melhor que é possível para quem está no terreno a vivenciar situações difíceis, urge agora que as tutelas cumpram com a sua parte”, sustenta a vice-presidente da ATEP.

“O problema é que o Ministério da Educação deixou de renovar os equipamentos das escolas, hoje verdadeiramente ultrapassados, e apesar de o Primeiro-Ministro ter afirmado em abril que as escolas abririam em setembro já devidamente equipadas, isso não aconteceu e agora aponta-se para um número bem abaixo das necessidades imediatas para meados de novembro. Além disso, há, realmente, problemas com a conetividade, com a falta de recursos acrescidos nas escolas, o que se torna ainda mais complicado quando temos professores com turmas em regime presencial, mas alguns alunos em casa a terem de ser acompanhados. Um problema que poderia ter outra solução, caso o ministério constituísse bolsas com os docentes de risco, permitindo que desenvolvessem atividade em regime de teletrabalho com esses alunos”, aponta Mário Nogueira, secretário-geral da FENPROF.

“No Agrupamento de Escolas do Viso, no Porto, as escolas não foram alvo de investimento por parte do Ministério, assim como os alunos ainda não receberam os prometidos equipamentos informáticos, e o ensino online é um objetivo por concretizar. Os alunos que estão em casa fazem fichas de trabalho que os professores enviam por e-mail, agravando-se a situação nas famílias que têm dificuldade em aceder ao e-mail e à impressora. Em casos como este, que estão espalhados pelo país, é muito preocupante que haja alunos em casa desde o início do ano letivo, por fazerem parte dos grupos de risco”, adianta Mariana Pereira.

“E depois há, ainda, situações de enorme desigualdade, que decorrem das próprias condições das famílias, onde, por vezes, impera a iliteracia digital, o que é ainda mais grave quando falamos de crianças ou de jovens que, por dificuldades várias, têm maiores dificuldades ao nível da sua autonomia, incluindo a digital”, aponta, por seu turno, Mário Nogueira.

“Temos encarregados de educação com apenas um filho em isolamento profilático e a ter que transportar diariamente os restantes filhos à escola, enquanto aguardam por uma declaração médica que garanta o resguardo a que a situação obriga. Há ainda casos de professores com filhos em casa em isolamento e que têm de continuar a trabalhar porque, ao contrário dos outros pais, não recebem uma declaração do delegado de saúde local para ficarem com os filhos em casa”, revela a vice-presidente da ATEP.

“Isso aconteceu, por exemplo, em Vila Viçosa ou Borba, quando as escolas encerraram, mas os professores que trabalhavam em outros concelhos tiveram de continuar a trabalhar, não sabendo onde deixar os filhos, para os quais tiveram de encontrar soluções, nem sempre fáceis. Num momento em que se anunciam confinamentos e/ou cercas sanitárias, em alguns municípios este problema tenderá a agravar-se”, defende o secretário-geral da FENPROF.

“É totalmente inaceitável que, mais de seis meses após anunciar o acesso universal dos alunos dos ensinos básico e secundário à Internet e a equipamentos informáticos, o Governo permita que estas situações aconteçam e que são ainda mais graves nos alunos que vão fazer exames no final deste ano letivo. As escolas não têm equipamentos e a capacidade da Internet é insuficiente, não permitindo a fluidez das aulas, onde as ligações vão abaixo ou têm quebras, acabando por afetar a qualidade do ensino para todos. Os alunos que estão na escola, em ensino presencial, também sofrem os danos de uma aula descontinuada e instável”, aponta a responsável da ATEP.

“Convirá, por último, acrescentar, que, no caso dos professores, a esmagadora maioria foi obrigada a adquirir os equipamentos para trabalharem com os alunos, designadamente quando o ensino a distância foi a norma, entre março e junho passados. As escolas não tinham equipamentos adequados e muitos casais de professores, com filhos também em teletrabalho, não tinham tantos equipamentos quantos os membros do agregado familiar. Compraram-nos, tiveram de aumentar a capacidade da conetividade nos seus domicílios, usaram os seus telemóveis para contactar os alunos e seria, no mínimo, natural que toda essa despesa fosse elegível para efeitos de IRS. Contudo, o governo ignorou esse esforço dos professores”, afirmou, por sua vez, Mário Nogueira.

Foto: DR.

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