Educação “Love on Top” ou o paradigma educacional do séc. XXI

Janeiro 20, 2018 Atualidade, Concelho, Educação, Mundo, Opinião
Hugo Pinto

Conhece a escola que o seu filho frequenta? … Não. Não pergunto se sabe onde ela fica ou qual o aspeto físico dela. O que eu pergunto é se sabe como ela funciona, quem lá trabalha, o que compete a cada um e se tudo isso funciona bem enquanto modo de operacionalização curricular.



E, sobretudo, sabe porquê?

Digo eu muitas vezes que ter sido aluno e frequentado a escola não faz de si professor. Não, nem por sombras. Sabe porquê? Porque por ter estado doente e ter frequentado o hospital ou centro de saúde, também não fez de si médico.

Mas é pai, mãe e/ou encarregado de educação. E como tal, o responsável máximo pela educação do(s) seu(s) rebento(s).

Acontece que hoje em dia toda a gente opina sobre tudo sem ter conhecimento de quase nada. Veja quantos grupos de Facebook se ingerem neste tema, sem que lá estejam verdadeiros especialistas em educação. Depois baralha-se tudo e confunde-se educação com formação. A escola deve dar ambas. Mas os pais e encarregados de educação devem assegurar-se que a primeira não está em falta. E está. De que maneira!

Assim, frequentemente, os pais e encarregados de educação do sec. XXI (salvas as devidas e justas exceções) entram pela escola adentro, de mão na cinta, a aferir de competência e dos “deveres” de tudo e todos, sem que primeiro tenham essa conversa, com a maior franqueza, em frente ao espelho. Quantas vezes já ouvimos “o meu filho/filha não mente!”. Sim, mente, como todas as crianças quando fazem disparates e tentam “safar-se”. “A culpa não é do meu filho/filha. É dos colegas”. Esta é um clássico! Não é por acaso que existe o ditado que diz que “a culpa morreu solteira”. É muito frequente ver os pais e encarregados de educação da época da informação digital, irromperem escola dentro, com ameaças veladas, a esgrimirem os direitos dos filhos. E muito bem! Desde que na outra mão levem também uma folha com os deveres dos mesmos.

E infelizmente, hoje, é muito este o estado da Educação que temos. Professores esmagados por um sistema em que o aprender é relativo, de um lado, e encarregados de educação minados pela desinformação social, do outro. E o que é importante, continua a passar pelo meio dos pingos da chuva.

Deveriam os pais então ir à escola fazer o que?

Bem, para começar, averiguar das condições em que todos trabalham. Professores e alunos. Condições de logística, condições políticas e de administração e gestão escolar, critérios curriculares, etc. Depois, perceber o porquê de os seus filhos e educandos estarem cada vez menos bem formados e sobretudo porque é que a escola se está a tornar cada vez mais inócua na formação das crianças e jovens. O paradigma de “escola para todos” foi transformado no novíssimo “todos para a escola”. E o que lá se faz, interessa cada vez menos.

Se isto já é muito mau, pior é a forma como o Ministério da Educação atua. Nunca, nunca, em quase vinte anos de docência, percebi que alguém do Mistério saísse do seu confortável gabinete e entrasse, sem aviso, numa sala de aula. Ficaria aturdido com tal discrepância que existe entre as leis do “eduquês” e a sala de aula real. Muitos dos problemas com que nos deparamos hoje, nas escolas, são fáceis de resolver de uma forma prática e não acarretam nenhum custo. No entanto, quais avestruzes, ignoram o “teatro de operações” e pululam de teoria educacional em teoria educacional, a ver se acertam com alguma, ou, pior ainda, em prol do culto pessoal, na concretização das suas teses de mestrado ou de doutoramento.

O “parto” mais recente é o da flexibilização curricular. Que eu entendo ser pertinente. Mas uma vez mais, pelo profundo desconhecimento do mundo real, é uma mudança que, apesar de recém-nascida, já tem morte anunciada. E, dramaticamente, pelas mesmas razões de sempre. Os principais agentes destas mudanças, os professores e os alunos, não foram (nunca foram e nunca são) ouvidos. Importa é jactar a mais recente moda do “eduquês”. O resultado, logo se vê. Até porque os filhos dos senhores ministros não andam em escolas públicas. Frequentam colégios respeitadíssimos de escolas internacionais, muito conservadores e zelosos dos currículos tradicionais. O resto é paisagem. “Bora lá” experimentar!…



Termino, a este propósito, com uma reflexão muito pertinente de uma colega professora, Alexandra Simões Silva, docente numa escola de Cascais, a respeito desta mesma “novíssima” flexibilização curricular:

«Só para interessados. E para saber o que os espera.

Vamos falar sobre a flexibilização. Esse “monstro” modernista, que entra pelas nossas escolas adentro, sem apelo nem agravo, sem estudos prévios, sem informações detalhadas dadas a pais, alunos ou professores. Achamos que somos a Finlândia da educação, mesmo depois da falência educativa da dita, e implementamos novas metodologias, como adolescentes aventureiros no consumo de drogas desconhecidas. Vamos ver no que dá. O que temos não funciona. É evidente, concordaremos todos nessa matéria. Então, experimentemos.

A teoria está repleta de clichés adoráveis: os alunos que buscam a sua própria aprendizagem, o “overmentioned” “aprender a aprender”, a descoberta dos alunos ávidos de conhecimento, a orientação do professor, mero espectador cuidadoso, ao serviço da curiosidade alheia. Há, de facto, escolas primárias e escolas até do segundo ciclo, nas quais esta realidade poderá ser implementada. Fará, até, como diria uma amiga minha, versada em escolas que já levaram a cabo a flexibilização, todo o sentido: alunos preparados para um futuro de imprevistos, situações inesperadas, ambientes hostis. Os Centenos e Guterres do novo mundo, o quinto império pessoano por cumprir.

Todavia, a teoria em muito destoa da prática real. As escolas públicas portuguesas não são ambientes plenos de alunos curiosos, predispostos para a descoberta individual, ciosos do seu processo de aprendizagem. Aliás, estamos nos antípodas deste paradigma. A apatia, os alunos hiperativos, os alunos com necessidades educativas especiais, os alunos que ingressaram no ensino secundário porque as escolas os cobiçam de forma a manter a sua autonomia, independentemente do encaminhamento errado. Misturamos alunos de origens várias, interesses semelhantes na sua apatia e letargia, desinteresse sobre e qualquer realidade exterior ao seu universo de amigos virtuais ou bloggers patéticos. Aconchegadinhos, às três dezenas, em salas frias, mal equipadas, sem livros, computadores, ou especialistas que permitam ao professor garantir o devido acompanhamento para uma investigação que quer ser autónoma por parte de alunos que há muito não o são.

Acresce a isto, os muitos alunos cujo futuro será hipotecado porque se imagina o sucesso imediato do novo currículo. Fórmulas químicas, células, equações matemáticas ao nível do secundário adquiridas de forma autónoma, com erros continuados até à obtenção da excelência. O aluno estruturado, com as aprendizagens essenciais que farão dele um autodidata, completamente independente da teoria monótona da aula expositiva do professor entediante.

Nunca fui e nunca serei contra a mudança. Sou a maior apologista da mesma. Os professores não são, na sua maioria, contra a mudança, quando esta se prova benéfica para os alunos. Pelo contrário, os professores reconhecem a complexidade do que têm entre mãos – do Tomás, que não pára quieto, cujas consultas de pedopsiquiatria continuam pendentes, do Diogo, que é incapaz de escrever o sumário antes de tirar todas as canetas do estojo, bem como a comida da mochila, e a roupa de educação física, ou dos alunos prestes a atingir a maioridade que, apesar de estarem presentes numa aula de teoria sobre conteúdos que irão exercer profissionalmente e de que gostam, optam por realizar uma competição de flatulência dentro da própria aula. E isto apenas no dia de hoje.

Numa tentativa de deixar que os alunos fizessem a sua própria pesquisa, com recurso ao novo deus da internet, um deles, que viveu em Londres durante um ano, afirmou que a cidade se localizava no norte de Inglaterra; outra, que Barcelona era a capital de Espanha. Admitamos: para chegar à perfeição, serão necessários muitos erros. O que me preocupa, como à maioria dos professores, prende-se com a ignorância de quem emana esta flexibilização como se de os Dez Mandamentos se tratasse, negligenciando as famílias desestruturadas, os alunos especiais, as escolas marginais e o panorama real desta nova geração cuja curiosidade nula invalida qualquer flexibilização idealizada nos contornos perfeitos de um ministério e diretores obedientes afastados da sala de aula há várias décadas.

(…)»

Por: Hugo Pinto* (Professor)

(* A redação do artigo de opinião é única e exclusivamente da responsabilidade do autor)

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