Sameiro Serra:«O meu trabalho não acaba aqui»

Setembro 17, 2017 Atualidade, Concelho, Entrevistas, Política

Agora que se avizinha o dia 1 de outubro, dia de eleições autárquicas, o Barcelos na Hora decidiu dar voz a quem tem que, por imposição legal, deixar o seu cargo de Presidente da Junta. E por imposição legal, compreenda-se por limitação de mandatos. Ao final de três mandatos consecutivos, o detentor do cargo de Presidente (de Câmara e/ou Junta) não pode recandidatar-se para um 4º mandato.



A primeira Presidente de Junta com quem falámos foi Sameiro Serra. Apesar de se ter candidatado para este último mandato numa coligação de direita, em 2013, é a única militante CDS que ocupa um cargo como este, no concelho de Barcelos. A autarca acedeu, muito gentilmente, à nossa solicitação de entrevista, por escrito, respondendo a algumas perguntas que lhe colocámos.

Empresária, de 49 anos, nasceu e vive em Carvalhal. É casada e mãe de quatro filhos. Na sua freguesia, fomentou a criação da Associação de Pais da Escola Básica de Carvalhal, que presidiu por quatro anos e à qual pertenceu desde a sua criação até sair para se candidatar à Junta de Freguesia. Enquanto cidadã foi sempre uma pessoa atenta às necessidades das pessoas e às “movimentações” políticas, nacionais e locais, levando a que, em 2005, enveredasse por uma candidatura à Junta, candidatura essa que saiu vencedora, tinha então 37 anos. De lá até aos nossos dias, exerceu a sua função de Presidente da Junta de Freguesia de Carvalhal e sobre esse trajeto, mas não só, Sameiro Serra deixou-nos as suas palavras.

1 – Fazendo um exercício de memória, consegue dizer-nos o que a levou a candidatar-se pela primeira vez? E o que sentiu ao saber que tinha conquistado a Junta?

O que motivou a minha candidatura foi a minha indignação em relação ao trabalho que faltava ser feito na minha freguesia. Sendo eu uma cidadã atenta e preocupada com o meio onde vivo, senti que, a determinada altura, podia ser útil. Desse modo, candidatei-me, predispondo-me a tentar fazer melhor do que teria sido feito até então.

Quando me candidatei, jamais pensei que fosse vencer. Pensava apenas que iria “agitar” um pouco com quem detinha o poder e retirar alguma da apatia em que se vivia. Na altura, a freguesia era liderada pelo PSD, desde o 25 de abril, pelo que pensei que fosse impossível vencer, ainda para mais, por um partido com pouca visibilidade na freguesia. No entanto, como para mim, perder não é vergonha nenhuma, mas sim, não ir a jogo com medo de perder, avancei com a minha candidatura e no dia das eleições, para grande surpresa minha, acabei por vencer. Na altura pensei: “e agora?”. Mas a boa vontade e paixão pela causa pública são coisas que não me faltam. Logo no dia posterior já tinha imensas ideias e uma enorme vontade de as pôr em prática.

“Se nos tivéssemos mantido unidos a freguesia teria ganho muito mais” (Sameiro Serra)

2 – Ao longo dos seus mandatos teve, certamente, momentos altos e momentos baixos. Consegue nomear qual o mais alto e qual o mais baixo?

Felizmente, lembro-me muito melhor dos momentos altos, do que dos baixos. Os momentos altos foram todos muito bons, pelo que me é difícil nomear um. No entanto, a requalificação da Escola Básica/Jardim de Infância (EB/JI) de Carvalhal foi a obra que mais me marcou. Para além disso, o que me dá maior satisfação é poder contribuir, todos os dias, para o bem-estar dos idosos da minha freguesia, bem como contribuir para o sorriso das crianças que frequentam a EB/JI de Carvalhal.

Os momentos baixos passaram-se em períodos de campanha eleitoral, ao ver pessoas próximas de mim, diria até meus amigos, deixarem-se levar por estratégias partidárias e interesses pessoais, em detrimento daquilo que eram os interesses da freguesia, pois estou certa de que se nos tivéssemos mantido unidos, tal como no primeiro mandato, a freguesia teria ganho muito mais.

3 – A Freguesia de Carvalhal é conhecida pelas boas condições que proporciona aos seus habitantes. Sente que contribuiu para esse facto?

Fico muito feliz pela freguesia ser reconhecida pelas boas condições que proporciona aos seus habitantes. Quando era mais nova, e me perguntavam onde eu vivia, eu dizia com muito orgulho que era de Carvalhal. Logo de seguida ficava triste, pois aquilo que dizia da minha freguesia não era motivo de orgulho. E, claro que sim, sinto-me responsável por esta nova conotação, já que fui eu que iniciei a prestação desses serviços à população, que melhoram, todos os dias, a qualidade de vida dos habitantes de Carvalhal.

4 – Se pudesse voltar atrás, mudaria alguma coisa do que fez?

Se voltasse atrás não mudaria absolutamente nada, nem no que disse, nem no que fiz. Considero-me de princípios e coerente comigo mesma. Sempre que falei publicamente foi para defender, acima de tudo, os interesses da minha freguesia. Nunca usei o meu cargo na Junta para obter favores pessoais. Estive doze anos num dos sistemas mais “lamacentos” que eu conheço. Um sistema que, já está provado, não serve da melhor maneira o povo mas que interessa continuar porque serve para muitos viverem, faustosa e irresponsavelmente, à custa da desgraça de milhares de cidadãos indefesos, que todos os dias são vítimas dessa irresponsabilidade. É com imenso orgulho que saio desse mesmo sistema sem me confundirem com ele. Por isso, melhor não poderia ter sido. Apesar das circunstâncias difíceis em que me encontro, consegui sempre salvaguardar a minha liberdade de pensamento e o meu carácter. Isso, para mim, foi a minha grande vitória.

Quanto ao meu trabalho pela freguesia, de todos os apoios e serviços que implementei, às obras que executei, também não mudaria nada. Simplesmente pelo facto de se revelarem, ainda hoje, de extrema importância e utilidade para os Carvalhenses e muitas delas, até, para o concelho de Barcelos. Estou a lembrar-me das inúmeras associações e instituições que beneficiaram do nosso autocarro, que orgulhosamente comprámos, sem qualquer tipo de apoio da Câmara, apenas e só com o esforço e união da freguesia.

“Até posso tentar compreender mas jamais alguém me irá obrigar a aceitar” (Sameiro Serra)

5 – A opinião pública achou “estranho” o CDS não se coligar com o PSD numa candidatura à Junta de Freguesia de Carvalhal. Pode esclarecer os nossos leitores sobre, afinal, o que se passou?

É uma pergunta complicada e na qual eu teria muito a dizer. No entanto, vou resumir o que foi a minha interpretação dos factos. Para dizer, apenas, que mais uma vez a estratégia partidária e o caciquismo do maior partido da coligação, com a benevolência do meu partido, se sobrepôs ao respeito e à consideração pelo trabalho efetuado pelas pessoas e ao que seria o interesse da população de Carvalhal. Como sempre nestas situações, dizem-me que a política é assim e que eu tenho que aceitar. Eu até sei que, infelizmente, assim é. E até posso tentar compreender mas jamais alguém me irá obrigar a aceitar.

6 – Como mandatária da candidatura CDS à Junta de Freguesia de Carvalhal, quais as suas expectativas para o próximo ato eleitoral autárquico?

Como mandatária da candidatura do CDS à Junta de Freguesia de Carvalhal, e tendo fomentado a formação da lista do CDS, mantenho sempre a mesma expectativa. Sei que temos na lista pessoas de bem que, tal como eu, não visam servir-se do cargo que ocupam mas, sim, servir da melhor maneira a população, sem qualquer tipo de descriminação, seja ela política ou social. Tudo o que fazemos na Junta, para nós, não é trabalho, é satisfação do nosso dever cívico cumprido.



“Dei sempre o melhor de mim, muitas vezes, com custos elevados para mim” (Sameiro Serra)

7 – Por fim, e pedimos desculpa, quer pelo número de questões, quer pelo teor mais pessoal desta última, … e agora? Vai continuar na “vida política”? Ou vai deixá-la?

Quem me conhece e acompanhou nestes doze anos em que exerci o cargo de Presidente da Junta, sabe que estive, sempre e só, nesta causa pela enorme vontade de contribuir com a minha forma de ser para melhorar a qualidade de vida de todos. Sei que com o meu trabalho fiz a diferença na vida das pessoas. Dei sempre o melhor de mim, muitas vezes, com custos elevados para mim. Mas os sorrisos que o meu trabalho provocou nos rostos das pessoas valeram tudo e foram sempre o motivo do meu próprio sorriso. Por isto, e muito mais, tenho a certeza que o meu trabalho não acaba aqui e para desistir só se for obrigada. Posso até nem ter um cargo ativo dentro do sistema mas vou continuar sempre, enquanto cidadã, atenta às necessidades daqueles que mais precisam. E para terminar, parafraseando Baden Powell “Sei que deixo o lugar onde vivo um bocadinho melhor do que o encontrei “.

Foram estas as respostas da Presidente de Junta de Carvalhal, Sameiro Serra, neste momento em que está prestes a deixar o cargo. A ela, o Barcelos na Hora deixa um enorme agradecimento pela simpatia e por ter aceite responder, por escrito, a todas as nossas questões.

Fotos: DR.

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