Ser mulher e ser cigana

Janeiro 25, 2023 Atualidade, Concelho, Opinião
Ana Patrícia Barroso

Ana Patrícia Barroso, natural de Barcelos, mestre em Serviço Social pela Universidade Católica Portuguesa, desde 2015. Desenvolveu a sua dissertação de mestrado com o tema “ A autonomização feminina no grupo étnico cigano português”. Anos mais tarde, a sua dissertação foi considerada a melhor tese de investigação do não em que foi publicada, o que originou o seu livro “Sina da Mulher Cigana”. Desde então que se dedica profissionalmente à intervenção social junto das comunidades ciganas, assegurando a sua integração na sociedade maioritária. 

Durante séculos, a mulher padeceu de uma invisibilidade social. Não tinha uma voz ativa até ao momento em que o ensino obrigatório começou a preparar igualmente homens e mulheres para a cidadania. A partir do século XIX, a par da reivindicação pelo direito à instrução, as mulheres lutaram pelo direito ao trabalho remunerado e, no século XX, a sociedade passou a ver a mulher como um ser cultural e não apenas como um ser da natureza. Nessa mesma época, a mulher conquistou progressivamente o direito ao voto, a igualdade em termos legislativos, a entrada em grande escala no mercado de trabalho, o acesso a vários níveis de ensino (incluindo o nível superior), a libertação do corpo, o direito à saúde sexual e reprodutiva e a ascensão a cargos públicos e políticos (incluindo o de presidente da república), embora ainda subsistam hoje focos de discriminação.

Porém, as situações das mulheres ciganas são diferentes das da mulher pertencente à sociedade maioritária. Desde crianças, a educação é diferenciada entre rapazes e raparigas. A educação da rapariga é feita em subordinação ao homem. Em menina obedecem ao pai, depois também aos irmãos e, com o casamento, a submissão da mulher cigana ao homem continua com a deslocação da mulher para a família do marido. Em todas as suas atividades, as raparigas são vigiadas. Por exemplo, quando vêm televisão não podem assistir a qualquer tipo de programa, sendo sempre acompanhadas por um familiar. As regras são mais ou menos rígidas, consoante a família. As meninas aprendem desde cedo a tomar conta da casa e dos irmãos mais novos. São educadas desde pequenas no sentido de cumprir um dever permanente para com a família e os seus, devendo esquecer-se de si próprias. Na cultura cigana é valorizada positivamente a mulher perspicaz, astuta e capaz de tomar conta da sua família. As suas projeções de vidas são ditadas pelos papéis que a comunidade cigana lhes vai atribuindo. Contudo, este apoio prestado nas lides domésticas serve também para educar as raparigas para as suas futuras funções de dona de casa, contraídas com o matrimónio. Os ciganos contraem matrimónio precocemente, quando comparados com os jovens da sociedade maioritária. Uma vez que este grupo étnico tem algumas resistências no relacionamento com os não ciganos, os casamentos são, salvo raras exceções, de origem endogâmica. O casamento pressupõe que as mulheres sigam a condição dos maridos: se são ciganas e se casam com um não cigano, têm de adotar os modos de vida dos não ciganos, se não são ciganas e casam com um cigano, têm de adotar os valores e as práticas dos ciganos. Esta exclusão (casamento com um homem não cigano) do mundo cigano pode ser sentida com alívio, dada as elevadas exigências feitas sobre as mulheres. Tal não impede que, na geração seguinte, haja uma reentrada no mundo cigano, através do casamento.

A partir dos 13/14 anos, as jovens adolescentes, são consideradas aptas ao casamento, tendo por isso que abandonar a escola precocemente. Como referem as Audições Parlamentares da Assembleia da República de 2008, é preceito tradicional da etnia cigana as meninas abandonares a escola a partir dos 10 anos, sem cumprirem o que está decretado por lei no que se refere à escolaridade obrigatória. Os membros da etnia acreditam que, de acordo com a tradição, não precisam de mais escolarização para desemprenhar os papéis de esposa, mãe, educadora dos filhos, em função dos princípios étnicos, que por esta mesma tradição lhes estão destinados. Geralmente, os casamentos são combinados entre os pais, sendo os noivos quase sempre parentes.

Existem questões que colocam a mulher cigana num estado de superioridade em relação ao homem, embora de forma oculta. Sendo uma dessas questões a relação da mulher com o corpo e a maternidade. Assim que se contrai um matrimónio, existe uma pressão por parte da comunidade na procriação do casal, sendo ‘exigido’ um número de duas a três crianças por família. Realmente, a mulher parece estar refém da comunidade, funcionando como sustentáculo da identidade étnica, na sua condição de procriadora, continuadora da etnia e das suas tradições. Daqui resulta a submissão através de uma vigilância por parte de toda a comunidade que parece tutelar o seu corpo, a sua vontade, os seus atributos femininos, a sua fertilidade. Um outro poder exercido sobre os homens está relacionado com o embelezamento do corpo. Desde cedo, as raparigas ciganas ganham hábitos de produção do corpo, como por exemplo, o uso de maquilhagem. Porém, a partir do momento, em que contraem matrimónio, estas práticas devem ser excluídas do seu dia-a-dia. Quando optam por dietas ou uso de tratamentos de beleza, fazem-no doravante sem o conhecimento do marido, exercendo assim um poder na dimensão oculta.

No que respeita à situação de viuvez, a mulher é mais uma vez colocada em desvantagem comparativamente ao homem. O homem viúvo pode sempre contrair um novo matrimónio, já a mulher, apenas quando a viúva é jovem e sem filhos, é-lhe permitida uma nova relação. Urge referir que este poder é exercido de forma invisível perante o olhar masculino, concedendo a este uma ilusão de total dominação sobre o género oposto.

No que diz respeito à esfera pública, a sua autonomia ainda não é muito notória, mas as coisas estão a mudar progressivamente. Quando é necessário intervir para resolver problemas com instituições extracomunitárias (segurança social, finanças, escola, etc.), continuam a ser as mulheres ciganas responsáveis pela sua resolução.

Em jeito de síntese, a discussão da questão do género feminino torna-se fundamental para perceber a dinâmica da vida cigana e das relações interétnicas. As mulheres ciganas debatem-se com problemas de género, subjugadas por uma tradição cultural cigana machista, por se atribuir uma valorização maior ao papel social do homem que se repercute no papel de submissão imposto às mulheres ciganas. Este papel de subordinação é uma constante ao longo do ciclo de vida da mulher cigana. Os elementos do sexo masculino têm mais liberdade de circulação e de interação com elementos da sociedade maioritária, o ‘Outro’, nomeadamente, com mulheres não ciganas. A desigualdade de género surge desde o nascimento, sendo por isso mais valorizado o nascimento de um rapaz por se entender ser motivo de menos preocupações

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