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ALGORITMI

Desde a Idade da Pedra até às Smart Cities

Outubro 9, 2020 em Atualidade, Concelho, Economia, Mundo, Opinião Por barcelosnahorabarcelosnahora
Luís Rosa

Caros Barcelenses, é com enorme satisfação que sou o novo membro da equipa de cronistas que compõe o jornal online Barcelos na Hora. Agradeço, publicamente, ao diretor do jornal, Pedro Soares de Sousa, por me dar esta oportunidade e, desde a primeira “Hora”, mostrar entusiasmo quando lhe propus este novo “espaço”.



Fui formado por uma das melhores academias do país, a Universidade do Minho, em Engenharia Informática. Apesar de exercer a profissão numa empresa multinacional americana, desde 2018 que decidi voltar ao mundo académico e sou doutorando/investigador no Intelligent Systems Lab do Centro ALGORITMI – Universidade do Minho na área das Smart Cities. A minha formação académica e a minha experiência profissional permitem-me abordar temas atuais como Cidades Inteligentes, Inteligência Artificial, Big Data, etc. e naturalmente, lhes darei destaque nos meus artigos.

Como qualquer outra área científica, a tecnologia é um elemento “vivo”, que foi tendo, ao longo da existência da humanidade, diferentes funções e evoluções como algo inacabado. Basta ver desde a Idade da Pedra, da época Medieval, passando pela revolução industrial até à revolução industrial 4.0 (a nossa era) de como a tecnologia e o homem andaram sempre de “mão dada”. Para confecionar os alimentos, começamos a usar o fogo, a partir da utilização de pequenos utensílios, milhares de anos depois, começamos a usar ferramentas sofisticadas para defender os nossos territórios ou comunidades, com a introdução do motor foi possível substituir o homem em trabalhos repetitivos. Chegamos ao ano 2020 e comunicamos por videoconferência com alguém que está noutra zona do globo e, com certeza, a evolução tecnológica não vai parar por aqui. Por esta razão, é fácil imaginar que os artigos em que irei enquadrar os tópicos acima apresentados poderão até estar, à hora da publicação, desatualizados. A tecnologia, sendo um parceiro do homem, tem que estar sempre a ser (re)desenhada na resolução dos problemas que ele enfrenta no dia a dia.

Por outro lado, as cidades estão a tornar-se cada vez mais atrativas, o que leva a um crescimento acelerado da população nas zonas urbanas. Segundo a Organização das Nações Unidas, atualmente, 55% da população mundial vive em áreas urbanas e a expectativa é de que esta proporção aumente para 70% até 2050. Sem dúvida que, gerir as cidades, será cada vez mais desafiante e, paralelamente, obrigará a uma maior democratização da parte delas. Por outras palavras, será conveniente uma maior participação da comunidade na construção de uma cidade sustentável e exige-se às instituições locais (autarquias) uma maior transparência e celeridade na tomada de decisões e na resolução dos problemas dos seus conterrâneos. Desta forma, para que estas duas premissas se cumpram o uso da tecnologia, torna-se útil, falamos, pois, em tornar as nossas cidades inteligentes (em inglês, Smart Cities).

A definição de Smart Cities não é consensual. Num artigo que propõe caminhos de inovação na gestão dos serviços públicos, Jean Hartley considera uma cidade inteligente aquela que liga infraestruturas físicas, infraestruturas sociais e os negócios para alavancar a inteligência coletiva. Por sua vez, o britânico Robert Hollands, professor de sociologia na Universidade de Newcastle, defende que são territórios com alta capacidade de inovação, que se constrói a partir da criatividade da sua população, instituições académicas e boas infraestruturas de comunicação. Porém, a União Europeia estabeleceu uma classificação de Smart Cities através de seis grandes pilares (ver a Figura). Cada pilar agrega um conjunto de indicadores que podem ser usados para medir a inteligência de uma cidade. A partir deles, será possível avaliar o nível de sucesso na transformação para uma Smart City. Os pilares e respetivos indicadores, são: Smart Mobility, Smart People, Smart Economy, Smart Environment, Smart Governance e Smart Living.

  • Smart Mobility – É um dos principais pilares de uma Smart City. Baseia-se no uso das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) para apoiar e integrar sistemas de transporte e logística de maneira a que a mobilidade se torne mais eficiente e eficaz. Esta plataforma inclui carros, aviões, comboios, bicicletas e até peões. Os seus indicadores são a boa acessibilidade local (nacional e internacional); boas infraestruturas TIC e transportes seguros, inovadores e sustentáveis.
  • Smart People – Pessoas participativas são fundamentais nas cidades. Os cidadãos devem adquirir e-skills, tudo dentro de uma comunidade inclusiva que contribua para a criatividade e a inovação. Além disso, a cidade atingirá bons níveis de inteligência se os seus habitantes forem incentivados a manipular aplicações tecnológicas (por exemplo, personalização dos dados para as tomadas de decisão), ou a criar novos produtos e serviços. Alguns indicadores são a pluralidade social e ética, a criatividade, o nível de formação profissional e a participação cívica.
  • Smart Economy – É a transformação da economia. Os seus principais objetivos são o aumento da produtividade, e-business e/ou e-commerce. Inclui, também, a produção e prestação de serviços com suporte tecnológico, como formas de melhorar a economia usando aplicações rápidas e confiáveis. Os indicadores para analisar este pilar são a produtividade, flexibilidade do mercado de trabalho, o empreendedorismo, o espírito inovador e a capacidade de transformar.
  • Smart Environment – É o pilar mais popular. Refere-se às políticas dirigidas para gerir o ambiente. Visa o incentivo à utilização de energias renováveis, medição, controlo e monitorização da poluição, gestão eficiente dos edifícios e o planeamento urbano verde. Portanto, os seus indicadores são a gestão de recursos sustentável, níveis de poluição, proteção ambiental e a eficiência no uso (reutilização e preservação) de recursos diversos.
  • Smart Governance – É o pilar mais delicado de todos. Apela-se a quem governa a nível local, que seja politicamente cuidadoso e sensível. Além disso, obriga a uma articulação entre diversas entidades a três níveis distintos: com os cidadãos, com governos de outras cidades (dentro da mesma região ou país) e com o governo central. Não menos importante, para uma governação eficiente e eficaz é necessário que as forças vivas da cidade (sector privado, público, civil e organizações nacionais) interajam mutuamente. Esta partilha institucional pode chegar ao nível tecnológico. Boas infraestruturas TIC, hardware e software adequado possibilitam a intensificação das parcerias entre as diferentes entidades. Por exemplo, é do máximo interesse dos cidadãos saberem as zonas onde o tráfego rodoviário é mais intenso e sugerir alternativas que facilitem a deslocação até ao destino. Portanto, é crucial, também, envolver os cidadãos. Os parâmetros que permitem avaliar este pilar são a participação dos cidadãos nas tomadas de decisão, a interação de serviços públicos e privados, uma governação transparente e as estratégias politicas.
  • Smart Living – A tecnologia torna o estilo de vida das pessoas mais confortável. Este pilar tem impacto nos hábitos sociais e afeta o comportamento dos cidadãos, tornando-os mais capacitados. Não menos importante, o feedback dos cidadãos é visto como algo importante para o governo da cidade. Além disso, refere-se também a uma vida segura e saudável, com diversos equipamentos culturais, e incorporando habitação de boa qualidade. Assim sendo, os indicadores que se destacam são a segurança, as condições de saúde, a qualidade de habitação, equipamentos educativos, atrações turísticas e coesão social.

Estes pilares são centrais para que uma cidade seja considerada verdadeiramente uma Smart City. Contudo, nem todas as zonas urbanas apresentam os mesmos recursos devido às suas caraterísticas e prioridades para o cidadão e/ou serviço público. Considera-se, assim, que uma cidade é Smart City mas apenas no respetivo pilar, ou pilares, adotado.

Smart City (Imagem: DR)

Espero que esta introdução às Smart Cities abra o apetite ao leitor sobre os diversos assuntos que irei abordar no futuro. A par disso, farei questão de partilhar projetos que os stakeholders, desde da área pública, privada até a sociedade no geral, desenvolvem para transformar as cidades em espaços mais sustentáveis e inteligentes. Não querendo, já, desvendar o tema do próximo artigo, fique atento à pista, até lá, stay away COVID.

Projetos Smart City interessantes para conhecer:

  • Em Barcelos Mapeamento Artístico e Cultural de Barcelos – O Município de Barcelos está a promover a plataforma “Mapeamento do Setor Artístico-Cultural” que consiste no levantamento da comunidade artística barcelense através de uma plataforma digital de recolha de dados. Caso seja do seu interesse, participe.
  • No Minho – O maior projecto de gestão de estacionamento está em Guimarães – A Câmara Municipal de Guimarães vai usar uma plataforma de gestão inteligente da Ubiwhere, que permitirá o controlo do estacionamento em avenidas e locais públicos, incluindo lugares de estacionamento de superfície. Vale a pena acompanhar este projeto, é aqui ao lado…
  • Em Portugal – Portugal organizou a Smart Cities Tour – Este projeto é desenvolvido pela Associação Portuguesa de Municípios Portugueses e a NOVA Information Management School, com os parceiros do mundo empresarial Altice Portugal, CTT e EDP Distribuição. Estão lançadas as bases para as cidades tornarem-se mais inteligentes.
  • No Mundo – A cidade de Palmerston focada na segurança dos cidadãosEsta cidade australiana usa a tecnologia inteligente para tornar a comunidade mais segura e habitável. Mais uma vez, a tecnologia torna-se um parceiro indispensável.

Por: Luís Rosa* (Membro e Investigador no Synthetic Intelligent Lab do Centro ALGORITMI – Universidade do Minho).

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