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Donald Trump

O ano (que não foi) de Donald Trump

Dezembro 31, 2017 em Atualidade, Concelho, Mundo, Opinião, Política Por barcelosnahorabarcelosnahora
Raquel dos Santos Fernandes

Nos anos 20, incentivado pelo antissemitismo sofrido pelos judeus na Europa, o desejo de criar um Estado judaico ganhava cada vez mais força. Um forte movimento migratório judaico, alimentado por aspirações sionistas, chegava então ao território otomano da Palestina e logo se iniciou uma onda de resistência entre as comunidades locais. Quando o Império Otomano foi desintegrado, após a Primeira Guerra Mundial, a Liga das Nações mandatou o Reino Unido para administrar o território que, após a Segunda Guerra Mundial e depois do Holocausto, a 14 de maio de 1948, se tornaria Israel. No dia seguinte, Egito, Jordânia, Síria e Iraque invadiam o país.


Quando o presidente Trump declarou, oficialmente, Jerusalém como capital de Israel, não só pôs em causa décadas de diplomacia dos EUA, como ameaçou desencadear novas agitações no mundo muçulmano. Como em 1948, como em 1967 e como em 1973. Ainda antes da fundação do Estado de Israel, o conflito israelo-palestiniano já se havia tornado num problema regional, mas Trump parece não conhecer bem a dimensão deste conflito. Ou melhor, talvez Trump, por entre o seu véu megalómano, não se conheça a si mesmo.

Esta é a quarta vez que Trump inicia uma grande mudança que coloca a América em desacordo com um consenso internacional significativo. Claro que vários presidentes americanos assumiram posições que desafiaram o consenso global, mas a diferença é que estes sempre se aliaram a outras grandes potências antes de atuarem e, como resultado, a América foi capaz de liderar, criar impulso e alterar o comportamento internacional. Trump, ao contrário, atuou, sem antes criar essas alianças e o resultado foi a inexistência de uma medida persuasiva que tornasse, novamente, a América grande.

Não surpreendentemente, ninguém o seguiu e nada mudou. As palavras de Washington foram ignoradas, os EUA seguem sozinhos e outros Estados vão tomando as rédeas da liderança global: a China no Pacífico, a Rússia no Oriente Médio e o acordo de Paris decorre de acordo com o previsto, com todos os Estados, à exceção dos EUA, a assumirem uma política ambiental sustentável.

Trump, simplesmente, não foi levado a sério e a América é cada vez mais um alvo de ridicularização do que de admiração.

Muitos outros acontecimentos políticos marcaram o ano de 2017. Poderia ter-me debruçado sobre qualquer um deles, mas parece-me que terminar 2017 com a intuição que este não foi o ano de Donald Trump, poderá ser um bom prognóstico para 2018!

Por: Raquel dos Santos Fernandes*.

(* A redação do artigo de opinião é única e exclusivamente da responsabilidade do/a autor/a)

Maastricht está de parabéns. E nós?

Fevereiro 26, 2017 em Atualidade, Mundo, Opinião, Política Por barcelosnahorabarcelosnahora
raquelsfernandes
Raquel dos Santos Fernandes

Entre as margens do rio Mosa, cravada entre a Alemanha e a Bélgica, Maastricht, uma das mais antigas cidades holandesas, foi palco da assinatura do Tratado que adotou o seu nome, a 7 de fevereiro de 1992. Na semana* em que se comemora os seus 25 anos, a União Europeia vive agora na realidade do eurocentrismo, dos fluxos migratórios e das divisões internas na sinuosidade do bloco europeu.

Comunidades Europeias, Política Externa e de Segurança Comum (PESC) e Cooperação nos domínios da Justiça e dos Assuntos Internos conduziram a União a uma nova etapa na integração europeia, agora com uma clara dimensão política, com o objetivo de reforçar a legitimidade democrática e a eficácia das instituições, desenvolvendo a vertente social da Comunidade e instaurando uma União Económica e Monetária. Ora, o apoio ao projeto europeu – criação de um mercado único e a confiança dos europeus de que juntos somos mais fortes – entra em declínio com a crise da zona euro. Apesar do fundamento de que a integração seria benéfica para todas as nações participantes, os europeus começaram a duvidar dessa suposição, alicerçados com a vitória de Trump do outro lado do Atlântico, que visivelmente se revelou num impulso às forças populistas que convelem os principais políticos da Europa e, acima de tudo, o projeto europeu. O facto do novo Presidente dos Estados Unidos da América ser um apoiante assumido do Brexit só reforça o argumento eurocético de que a União Europeia seguiu uma direção errada.

A corporalização de um certo desprezo pela democracia nacional e supranacional – e seria importante que os apoiantes do Brexit, que agora culpam Merkel e Hollande, refletissem sobre aquela que foi a postura de Tony Blair na Europa – não estará isenta de culpas na deriva ultranacionalista da Polónia e da Hungria. E depois a humilhação económica e social da Grécia, a incapacidade de implementar cotas de refugiados equitativas, o papel hegemónico de um Estado-Membro sobre os demais Estados, o fracasso em distinguir e unificar a Europa e a falta de vontade em restabelecer um modelo social europeu. A ideia de Estado-nação também desafia a ambição do projeto europeu, daí a importância de construir um ambiente político pós-nacional e não agressivo. A concessão de poderes especiais a alguns Estados-Membros, a promoção de uma integração não harmoniosa em detrimento de “fatores alternativos”, a aprovação de uma maioria de parlamentos nacionais para bloquear a legislação da União Europeia significam, essencialmente, legitimar os nacionalismos locais e o crescimento, cada vez mais, de uma retórica eurocética.

Se as ambições pós-nacionalistas não são uma opção para a realpolitik dos nossos tempos e se continuamos a querer promover a democracia e os direitos humanos, a paz, a prosperidade, a solidariedade e a harmonia, não esqueçamos que, aos olhos do projeto europeu, que também é nosso, as várias culturas e línguas que nos unem continuam a ser uma mais-valia para o velho Continente, in varietate concordia.

*ndr: este artigo foi entregue na semana de 07 de fevereiro de 2017

Por: Raquel dos Santos Fernandes.

Estado de saturação

Janeiro 29, 2017 em Atualidade, Opinião, Política Por barcelosnahorabarcelosnahora
raquelsfernandes
Raquel dos Santos Fernandes

Não há consenso sobre o que realmente constitui uma democracia e, como tal, perante a ausência de unanimidade sobre uma teoria que a sustente, durante longos anos, associamos a democracia à nossa libertação da ignorância, da dependência, da intolerância… Cansados, contentamo-nos hoje, de bom grado, com a garantia de que quem chega ao poder ou nele se mantém, o faz através da vontade da maioria.

Foi desta forma que, um pouco por todo o mundo, a eleição de Donald Trump como 45º Presidente dos EUA foi encarada – um resultado da vontade da maioria (ressalve-se que, neste caso, a vontade da maioria é referente aos eleitores do Colégio Eleitoral e não ao voto popular). Porém, quando a maioria dita as regras sem apelar à justiça e à equidade e quando as disposições contra a discriminação consagradas na Carta das Nações Unidas não são respeitadas, o que nos resta do processo democrático para além do sufrágio universal? E o que pensar quando um Estado, pai da globalização que tanto ajudou à difusão dos valores democráticos, descura da diversidade e do pluralismo?

Nós por cá, no velho Continente, temos vindo a assistir ao incremento de movimentos nacionalistas e populistas. Enquanto os níveis de desemprego continuarem elevados, muitos serão os governos que continuarão a adotar políticas migratórias restritivas e Farage, Le Pen e Hofer prosperarão… Com a recessão, os problemas de integração aumentam, de mãos dadas com o desemprego massivo e as retóricas xenófobas. Em 2015, na Polónia, já havíamos presenciado isso – afinal, o partido nacionalista Lei e Justiça não teve dificuldades em formar governo sem recorrer a alianças, contrariando a opinião dos líderes europeus. O desemprego jovem no país rondava os 24%, aproximadamente o triplo do valor apresentado pela vizinha Alemanha. As remunerações salariais, três vezes inferiores. Um ano antes, na Hungria, o Jobbik, autodenominado “radicalmente cristão e nacionalista”, tornava-se na terceira maior força política do país.

Estes partidos e movimentos políticos têm recebido apoio de votantes das mais diversas ideologias políticas. Desenganem-se os que pensam que apenas os homofóbicos, os xenófobos, os racistas e os machistas o fazem… Este apoio é-lhes dado por uma maioria que protesta contra o desemprego galopante, contra a fraca estrutura económica dos Estados e que procura uma alternativa… por pior que essa alternativa nos possa parecer. Cansados das elites políticas e do aparelho do Estado, os norte-americanos votaram em Trump, os polacos em Duda e Szylo e, por este mundo fora, outras maiorias começam a refazer a história dos Estados democráticos ou daquilo que deles resta. Porém, se os direitos humanos são, ainda, o apogeu do Estado democrático e se ainda desejamos uma maior igualdade política e social, não deveremos respeitar esses mesmos direitos?

Por: Raquel dos Santos Fernandes (investigadora – mestre em Ciência Política)

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