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Teresa Augusta Pimenta

Quem nunca?

Fevereiro 25, 2017 em Atualidade, Opinião Por barcelosnahorabarcelosnahora
teresa pimenta
Teresa Augusta Pimenta

Este tema surge, invariavelmente, quase todos os dias. Conversas de café, artigos no jornal, reportagens na TV. Começa a ser cansativo e, de certas perspetivas, radical – até. Todavia, é necessário insistir, porquanto ainda não assente. Manifesto, desde já, a minha despreocupação, relativamente à linguagem socialmente macia. Nada que nunca tivessem feito.

Vamos a um breve jogo do “quem nunca?”, direcionado às senhoras. Tão breve, que se resume a duas perguntas.

(Uma nota merece ser feita, para evitar generalizações. Cada caso é um caso e estamos no bom caminho. A rota tem vindo a ser – continuamente – mudada. Não obstante, é como tudo: antigamente, a palavra divórcio era tabu e, hoje, tabu é continuar casado sem haver respeito, sentimento e amor-próprio.)

1.º – Quem nunca ouviu algo do género: “Ui, que saia tão curta! Que vestido tão justo! Alto decote! Tens que ter cuidado, este sítio é frequentado por muitos homens!”?

Encontra-se, algures na Terra do Nunca, estabelecido que se uma mulher for de vestido justo, de saia reduzida, ou com um decote mais acentuado para o trabalho, quer significar que está a “dar o peito às balas” ou a “pedi-las”. E quem diz trabalho, diz outro sítio qualquer. Pelo direito – socialmente aceite – de vestir o que eu quiser, sem que tenha que ouvir comentários destes, ou comentários ordinários, por parte de algum homem, era importante abrir mentalidades imberbes. Quem se comporta de maneira – socialmente – inaceitável, são eles, não nós. Onde é que um fato clássico (aka, largo) é sinónimo de capacidade de resolução de problemas? Por acaso um botão desapertado deixa transparecer as minhas limitações, enquanto profissional? É preferível ligar o ar condicionado? Por enquanto, ainda é.

2.º – Quem nunca ouviu um piropo, na rua/discoteca/centro comercial, do estilo: “Belas pernas, a que horas abrem?”?

Esta é dada. Até porque, em Setembro de 2015, entrou em vigor a Lei n.º 83/2015, que alterou o artigo 170.º do Código Penal, ficando este com a seguinte redação: “Quem importunar outra pessoa, praticando perante ela atos de carácter exibicionista, formulando propostas de teor sexual ou constrangendo-a a contacto de natureza sexual, é punido com pena de prisão até 1 ano ou com pena de multa até 120 dias, se pena mais grave lhe não couber (…)”.

Mas pena é ter que se chegar a este ponto. O ponto da imposição. Claro está, é uma lei sem género, mas todos sabemos qual é, maioritariamente, o género do público-alvo. Eu não consigo conceber como é que determinados homens, a quem reconheço uma educação polida, conseguem comportar-se desta forma. E, note-se, assédio sexual de rua, constrangimento sexual, perseguição sexual são conceitos – manifestamente – diferentes do vulgo “piropo”. Ah, mas uma mulher até pode gostar de ouvir piropos sexuais, ou “bocas” de cariz mais agreste. Muito bem, mas direito é diferente de obrigação. Se alguém me difamar, eu tenho o direito de apresentar queixa, mas não sou obrigada. A questão, aqui, reside na velha máxima de Victor Hugo: “a liberdade começa quando acaba a ignorância”. Ai, se fosse a vossa filha!… “QUEM FOI O CABRÃO? VOU LÁ E PARTO-LHE OS DENTES TODOS!”

Senhores, esta pergunta é para vós. Considerem-na como um bónus do jogo. Quem nunca se transfigurou, quando vos mandaram para a *uta que vos pariu? “Ah, porque não te dou o direito de insultares a minha mãe!” Pois é… O objetivo nunca foi esse, garanto-vos! Mas se fossem mandados para o pai que vos ajudou a serem concebidos, nem comichão sentiriam… É tudo uma questão de perspetiva. Já para não falar que a vossa irmã é bem boa e tenho um amigo que, facilmente, teria relações sexuais com ela. Mas só depois de ter ido com a vossa prima para a Franqueira (e a vossa tia a assistir).

Por: Teresa Augusta Pimenta.

Mel de domingo, à lareira

Fevereiro 11, 2017 em Atualidade, Cultura, Opinião Por barcelosnahorabarcelosnahora
teresa pimenta
Teresa Augusta Pimenta

Parabéns.

A ti e a mim.

E nós, também.

Sem medo, nem desdém.

Sem início, nem fim.

És-me quanto tens.

Dás-me tudo, quanto baste.

Sem rotina, nem desgaste.

Não há do que me farte.

Não és obra, és arte.

 

Desmedido trecho de mim,

Peço-te sempre assim:

Não te apartes do que é teu,

Não furtes este elo meu.

 

Se faz sentido ou não,

Só isto me faz impressão:

É saber que é tão mais forte,

Que não aconteceu por sorte

E que há uma essência

Para a não coincidência

Desta base de incidência.

 

E fora o dramatismo lírico,

Se queres que simplifique,

Amo-te, pois tu és vida,

Amo-te, com garra querida.

 

E o meu Amo-te vem do latim

De quem nunca amou assim.

 

Por: Teresa Augusta Pimenta.

Amor e um café

Janeiro 28, 2017 em Atualidade, Opinião Por barcelosnahorabarcelosnahora
teresa pimenta
Teresa Augusta Pimenta

Restava, apenas, um menstruado som, até que a noite desse à luz o dia. E eu levantei-me, antes mesmo de o despertador tocar. Nem é costume. (O que é o costume?) Mas ele tocou, impertinente, ainda assim, sabendo-me apática, julgando-me morta. Ah, é verdade, não estás cá. Emigraste. Nós somos o verdadeiro drama da emigração. Fui tomar um café, hábito que tu me instituíste. Precisava de um café para acordar. (Ainda não tinha acordado?) Mas o café não soube igual. Creio que nem a café sabia. O sabor era uma mistura de saudade e esperança, amargo à mesma. E o senhor ficou muito espantado, quando eu trauteei o meu pedido.

“- Bom dia. Queria amor e um café, se faz favor!

– Bom dia, menina. Pedimos desculpa, mas aqui não servimos amor.

– Oh!, que disparate. Julguei ter visto outra pessoa atrás do balcão.

– Não tem mal menina, pode ser que o café lhe conforte o coração.

– O que me conforta o coração não é fungível, nem consumível.

– Beba o café, menina. Tudo na vida é café. Amargo, mas necessário, escuro, mas revitalizante, tão rápido é quente, tão certo que esfria, pequeno, mas poderoso, intenso, mas perecível.

– Não quero. Esfriou.”

Esfriou, mas amanhã vai estar quente outra vez. E vou tomar o café como tu o tomas. Com a elegância que só tu tens. Com a subtileza de quem sabe sempre estar. Acompanhada de um jornal. Sem açúcar. Não obstante, levarei o pacote para casa. Vou juntar todos os pacotes para ti. Eu sei que gostas. Desses pacotes, faremos um bolo de banana e canela.

O dia já voou. Era noite, outra vez. E de tanto sofrimento que possuía, só todo é que restava.

Por: Teresa Augusta Pimenta (Jurista de formação…convicta de personalidade)

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